O jovem Kubrick em “Glória feita de sangue”

Stanley Kubrick, como é de conhecimento geral, figura entre os maiores realizadores cinematográficos desde a origem da sétima arte. É daqueles essenciais, que contribuíram para uma inflexão no caminho do cinema, daqueles do seleto grupo que emprestam seus nomes a epítetos, como kubrickiano, neste caso, ao lado de bergmaniano, tarkvoskiano, e por aí vai. Kubrick tem sua obra dividida claramente em duas: a primeira, desde os primeiros curtas (incluso aí uma propaganda para uma empresa) até o grande filme Doutor Fantástico, e sua virada se dá em 1968 com a obra-prima 2001: uma odisseia no espaço. São várias as diferenças: na primeira fase muitos roteiros eram originais, os filmes eram preto e brancos e não havia uma crítica corrosiva dos sistemas sociais (Laranja Mecânica), do mundo tecnológico (2001), do exército (Nascido para matar) entre muitos outros temas, aumentando a violência e a crítica impressas nos longas, além de desenvolver imensamente as técnicas de filmagens, a paleta de cores, a direção dos atores, entre outras coisas.

Muito bem, Glória feita de sangue (1957), objeto do comentário deste texto, faz parte da primeira fase do Kubrick, e trata da corrupção e opressão da e na I Guerra Mundial pelo exército francês, tudo com muita ironia e coisas algo desconfortáveis, aspecto que seria trabalhado com afinco para se apresentar com perfeição na segunda fase do diretor – quem não lembra de uma cena desconfortável em filmes de Stanley Kubrick? O protagonista é o coronel Dax (Kirk Douglas, o mesmo de Spartacus), que é obrigado a executar um ataque a um ponto do inimigo, os alemães, sem combatentes suficientes, o que gera uma derrota acachapante e muitas vidas perdidas. O caminho da ordem do ataque nasce em uma negociata no alto escalão do exército dos aliados, numa cena maravilhosa – certamente a semente para Dr. Fantástico – em que os generais conversam, em uma sala suntuosa, e toda hipocrisia desse alto escalão vem à tona, junto à opressão às baixas patentes, que pagaram com milhares de vidas pela promoção de um ou outro general.

Durante o filme são vários os elementos de filmagens que reconhecemos a mão do jovem Kubrick: um enquadramento em que passam pessoas pela câmera, várias pernas cortam o que a câmera filma, como num deboche aos enquadramentos conservadores com câmera parada a 1 metro e meio de altura. Os plongée (enquadramento de cima para baixo) e contra plongée (de baixo para cima) são usados para dar significado a conversas entre personagens, por exemplo, em usos interessantes de câmera, aprendizado dos mestres do expressionismo alemão das décadas iniciais do século 20. Também é muito interessante o desenrolar do enredo, que sai da guerra e se envereda para um julgamento kafkiano, totalmente sem pé nem cabeça, buscando criminalizar baixas patentes escolhidas a dedo como bode expiatório. Não vou enumerar aqui, mas são vários os momentos desconfortáveis, seja nas ordens militares para o ataque suicida, seja na inversão de princípios morais no exército, na figura do oficial bêbado que, com medo, mata, um pouco por acaso, um cabo a seu comando, ou na hipocrisia maior que guia o filme: o ataque suicida por conveniências políticas do alto escalão militar de ocasião. Essa relação – uma armação qualquer feita pelos de cima, ou algo como um gatilho para o enredo, gerado por personagens em classes sociais altas e que tem como bode expiatório sujeitos de classes sociais baixas – tem muito a ver com o filme O dinheiro, grande filme de Robert Bresson, de 1983. Lá e cá percebemos a dinâmica do capitalismo de opressão e perpetuação dos abismos sociais nas sociedades contemporâneas, quando – e dizendo muito mecanicamente – os pobres, os mais abaixo na pirâmide social, pagam o pato.

Kubrick é um grande diretor, então por isso é muito interessante buscar seus filmes antigos, percebendo e analisando os trejeitos daquela direção, mesmo que mais fraca esteticamente naquela época. Kubrick parece cultivar sempre a ironia como crítica social e investir na direção de fotografia – nos seus enquadramentos, uso de cores, movimentos de câmera, etc. – para dar corpo a suas obras. (Fica a dica de outro filme antigo da primeira fase kubrickiana que é um ótimo exemplo para perceber traços característicos de seu estilo: A morte passou perto, quando o diretor retorna ao mundo do boxe, já mais maduro que seu interessantíssimo curta O dia da luta (1951), e lá encontramos enquadramentos inteligentes à lá Orson Welles, câmera subjetiva, montagem com função narrativa, enfim, muita coisa boa para desfrutar vendo um grande realizador em seus primórdios.

Glória feita de sangue está disponível no serviço de streaming do Telecine, a Netflix deles, com outra obras de Kubrick e de outros grandes do cinema mundial, como Ingmar Bergman, Federico Felline, Agnès Varda e outros.

Rodrigo Mendes

 

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