Lembrança de uma sessão de cinema na sala PF Gastal

Antes do texto peço desculpas, pois esta coluna é quinzenal, sempre às quintas-feiras, mas semana passada não consegui postá-la como de costume.

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Porto Alegre tem, ou tinha, uma grande sala de cinema chamada PF Gastal. O nome é uma homenagem a Paulo Fontoura Gastal, um grande entusiasta da sétima arte no Brasil, responsável por impulsionar o cinema e fazê-lo circular no também no Rio Grande do Sul, especialmente em Porto Alegre. A sala foi inaugurada em 25 de maio de 1999 e recentemente, em meados de 2015, salvo engano, ela foi fechada para reforma do prédio onde estava. O prédio em questão é um dos pontos turísticos da capital gaúcha, a Usina do Gasômetro, que foi inaugurada em 1928 e foi responsável por gerir a eletricidade incipiente em Porto Alegre (a usina, apesar do nome, não produzia energia com gás, mas com carvão mineral). Hoje em dia o imponente prédio é um espaço cultural, que recebe exposições, sedia oficinas, abarca ainda a sala PF Gastal, cafezinho, terraço aberto com vista para o Guaíba, lago que costeia a margem oeste da cidade e que recebe um belo pôr do sol. O prédio está fechado há anos e a prefeitura da cidade não parece muito animada em reabri-lo – por isso não sei se o mais adequado é dizer que temos ou que tínhamos a grande sala PF Gastal. A Usina é um grande espaço cultural da cidade, lembro de ver lá a exposição Gênesis, de Sebastião Salgado… bela exposição. Enfim, esperamos que o prédio reabra assim que possível – após a pandemia, claro.

A sala já exibiu grandes filmes – e filmes muitas vezes raros de se ver no circuito comercial de shoppings e tal. As melhores mostras de cinema dos últimos 10 anos em Porto Alegre aconteceram na PF Gastal, sem sombra de dúvidas. (Hoje o diretor Leonardo Bomfim – ou alguma outra nomenclatura que não sei, é preciso verificar –, que trabalhava na sala, está na Cinemateca Capitólio, outro cinema histórico de Porto Alegre cuja história vale outro texto.) A PF Gastal abrigou mostras como de Andrei Tarkovski, cinema japonês, faroeste americano; passou filmes de diretores como Tsai Ming-Liang, de filmes como Cães errantes e outros. Lá também foi exibido Mistérios de Lisboa, um filmão de 5 horas e meia, monumental série de TV que virou filme do português Raúl Ruiz; a nouvelle vague japonesa de Imamura e outros… São muitos os bons filmes que circularam pela PF Gastal e que propiciaram encontros marcantes com o público da cidade.

Mas a lembrança em questão é do filme Contos da lua vaga, 1953, de Kenji Mizoguchi. Se trata de um filme japonês “pré-nouvelle vague”, ou seja, antes dos cinemas de vanguarda da década de 1960, que aborda um cotidiano de dois homens “na guerra civil japonesa, no século 16”, nos lembra o Filmow. Grande filme, me impressionou muito quando vi, talvez por eu frequentar com gosto o cinema japonês, gostar muito das várias estéticas dos múltiplos tipos de cinema japonês, e que parecem ter pontos em comum. Mas talvez um elemento extra-fílmico tenha contribuído para essa recepção tão marcante. E é um elemento que é menos da forma do filme e mais da forma da projeção do filme na sala de cinema.

Li sobre isso certa vez no caderno “Doc” da Zero hora. O autor, cujo nome não lembro, é professor no Instituto de Artes da UFRGS, e escreveu um texto muito interessante sobre a impossibilidade de irmos às salas de cinema devido à pandemia, e de como isso impede algo fundamental do cinema: o ato de assistir ao filme na sala de cinema. O autor embasa muito de seu pensamento no filósofo e crítico literário francês Roland Barthes, que diz que faz parte do Cinema não só a forma do filme a que assistimos, mas também o ato de assistir, o ato de ir à sala de cinema, de se perceber enquanto público visto que há diferentes pessoas ao arredor do espectador de cinema. Isso para Barthes, diz o professor, era quase como um ritual: sentamos entre estranhos, vemos a tela grande branca, ouvimos o som da projeção, do projetor, os ruídos, o feixe de luz projetando-se em direção à tela. É preciso apontar que ele está pensando no cinema e nas salas de cinema da Europa, talvez dos EUA, mas principalmente na França – seria preciso buscar novamente o artigo para confirmar –, e nos anos 1950, pós-guerra, quando escreveu ensaios que o professor retoma no seu texto no “Doc”.

Quando li esse texto, depois de um tempo me lembrei da minha experiência na PF Gastal assistindo ao Contos da lua vaga. Lá, antes de começarem as sessões, era comum ouvir algumas palavras de abertura ditas pelo Leonardo Bomfim. Nesta ocasião, ele disse que o filme a que assistiríamos era uma cópia de um negativo do filme que datava, salvo engano, dos anos 1950, ou seja, contemporâneo do longa. Esse negativo tinha sido cordialmente cedido, para aquela mostra, por um órgão japonês no Brasil, mas que infelizmente não lembro o nome, se consulado, se embaixada… Além disso, Bomfim também pediu paciência para o público por duas razões: a primeira porque o negativo era muito extenso fisicamente, um metro linear muito grande e que não cabia no projetor que a sala tinha, por isso haveria uma pausa em torno de 5, 10 minutos para que colocassem a segunda parte quando a primeira tivesse sido totalmente exibida. A segunda coisa era que, por causa da idade daquele negativo, ele estava muito frágil e poderia romper a qualquer momento.

Era facilmente notável tudo isso, pois durante toda exibição de Contos da lua vaga naquela noite na Gastal, a tela tremia muito, o som era truncado, às vezes a tela apagava como em um frame, em um quadro do filme, ou surgia uma bola preta num canto; era perceptível também no próprio feixe de luz de que fala Barthes, e que o professor retoma, pois aquele feixe de luz se projetando na tela poderia arrebentar-se a qualquer momento, finalizando para sempre aquele momento, aquele ritual que a sala de cinema proporciona. Então lembrei de um debate sobre formas que são enquanto se dão, o que se dá, dando, no momento em que se apresentam, como uma performance que ocorre naquele momento só, uma vez e sempre diferente, único a cada vez. Isto é uma experiência histórica e parece se assemelhar à lembrança que contei da sala PF Gastal, essa maravilha de Porto Alegre. Assisti ao filme enquanto ele próprio se realizava materialmente ali, projetado na tela, naquela sala pequena e bem preenchida. O fato de aquele ter sido um momento único, irrepetível, talvez responda àquela pergunta que enunciei no início, sobre o fato de o filme, ou a sessão de cinema em que vi o filme, havia me marcado.

É claro que o cinema dos anos 1950 é diferente do de hoje em dia, e sua circulação certamente também é. E é claro também que uma experiência como esta, a saber, de assistir a um filme assim, com uma relação de proximidade entre o receptor e a obra de arte, só poderia acontecer, hoje em dia, em uma sala de cinema independente da indústria cinematográfica como o é (ou era) a sala PF Gastal – e como é, hoje, o Capitólio. Nos cinemas de shoppings e outros mais comerciais é impossível uma experiência assim. Mais de uma vez tive que pedir para que outrem parasse de falar – de falar – dentro do cinema. Os shopping passam basicamente o que está mais na moda, os tais blockbusters (arrasa-quarteirão) de heróis, mas também vários “filmes” que vão ao Oscar. Um cinema que não pede, não proporciona uma interação entre espectador e a obra de arte.

Busquemos, quando a pandemia arrefecer e permitir, as salas de cinema que proporcionam experiências cinematográficas memoráveis, típicas das Obras de Arte.

Rodrigo Mendes

 

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