Protagonismo feminino é destaque no livro de contos de Fernanda Mellvee

Na mais nova obra da escritora gaúcha, Fernanda Mellvee, finalista do prêmio Kindle 2017 com o romance Amarga Neblina, encontramos uma série de encantadores contos permeados de questionamentos e críticas sociais, cujo tom ora pende para o humor, ora para a melancolia, tomando rumos surpreendentes e conduzindo o público leitor à reflexões sobre diversos assuntos relevantes, destacando-se dentre eles o protagonismo feminino: nas narrativas de Mellvee, vemos a mulher tomando o seu lugar de direito como protagonista da própria história. O tema é abordado de diferentes formas em cada conto, através de uma prosa marcante e com tons líricos e fantásticos.

O livro inicia com “Ausente noite”, uma narrativa tão embriagante quanto o absinto, bebida esta que marca a noite do encontro da protagonista com o homem que a faz se sentir viva – homem este que, aliás, não é seu marido, pois, em uma fatídica noite, o marido da protagonista se encontra ausente, assim como todos os outros habitantes da casa, os quais compareceram ao enterro de uma jovem amiga da protagonista. A novela trata de temas como o adultério e o casamento que aprisiona a mulher, a qual sente precisar viver uma aventura de forma a sentir-se livre de sua rotina fria, ela precisa fazer algo inusitado para sentir que pode tomar o controle de sua vida e se libertar das amarras que a sociedade a impõe: que seja uma esposa sorridente, frágil e doméstica.

Porém, como uma bela crítica social e mergulhando no psicológico da personagem no maior estilo Madame Bovary, a obra revela como a nossa protagonista é na verdade bem o contrário de tudo que é esperado dela pelos padrões da sociedade patriarcal: a jovem tem uma sede de vida e de liberdade, a qual atinge seu ápice ao sorver o absinto e ao se entregar ao seu amante, quebrando assim as regras de um casamento que não a permitia ser ela mesma.

No entanto, durante toda a narrativa, temos indícios de que a noite do encontro com o amante pode ter sido apenas um sonho. Ou será que não? Para descobrir o que aconteceu, leia inclusive as entrelinhas da embriagante obra de Mellvee, e sorva cada sílaba.

O livro segue com a brilhante narrativa de realismo fantástico “O amante fantasma”, na qual uma jovem casada e solitária encontra consolo nos braços de uma alma do outro mundo. O desfecho, no entanto, talvez não seja o mais esperado pela maioria dos leitores acostumados com histórias de fantasmas, o que cria um efeito bastante surpreendente e bem humorado.

Em seguida temos um dos contos que considero como de maior impacto do livro, chamado “A noite dentro de mim”: uma bela narrativa que mergulha na mente da protagonista, relevando seu desabrochar como ser livre e criador. Cada frase do conto é repleta de um lirismo marcante e cada parágrafo traz referências literárias, as quais são importantes para compreender as motivações da personagem para a busca que ela narra, direcionada sempre à literatura como forma de vida e transgressão. Uma das frases mais marcantes, que demonstra a melancolia da personagem, merece ser aqui transcrita: “Mas chega uma hora em que a ficção não basta e a realidade se impõe com todo o seu nada”. Enfim, revelar demais sobre este conto poderia arruinar a experiência singular que é o impacto de uma primeira leitura dele, então concluo afirmando que é uma leitura necessária, na qual se desdobra a essência, não somente das personagens de Mellvee, mas como também da busca do autoconhecimento e da autoafirmação do sujeito sobre o mundo, tema este muitas vezes explorado pela literatura.

O penúltimo conto é uma história baseada em fatos reais: de acordo com o epílogo que o acompanha “em 1948, tem início a história de amor de Nilza Linck, uma jovem desquitada e mãe de um menino, e Carlos Eurico Gomes, um influente político da época. Para manter seu romance em segredo, Carlos Eurico, que era casado, construiu um castelo de inspiração medieval – o Castelinho do Alto da Bronze – localizado no Centro Histórico de Porto Alegre, na esquina entre as ruas Vasco Alves e Fernando Machado. Com o tempo, o local passou a servir de cativeiro, pois Nilza era proibida até mesmo de se aproximar das janelas. Após quatro anos de união, Nilza se separa de Carlos Eurico, fugindo da violência e das constantes ameaças as quais era submetida, ao lado do filho. No ano de 2009, aos oitenta e seis anos, Nilza retorna ao castelinho, na primeira visita que faz ao local sem esconder sua identidade. Debruçada no parapeito de uma das janelas – proibidas para ela na época em que era moradora – ela comenta: “Como é bom poder olhar para a rua.” Baseado nessa história, Mellvee escreve “A prisioneira do castelinho de pedra”, um doce conto de libertação e uma bela demonstração feminista de como a mulher pode e inclusive deve ser feliz sozinha quando não puder se sentir livre dentro de um relacionamento, ou, como diz a narradora: “Antes ser gata em qualquer borralho. A partir de agora sou fada-madrinha de mim, serei rainha-mãe onde eu quiser, porque toda mulher já nasce deusa e tem o universo dentro de si.”

O livro se encerra de forma mágica, com o conto “A mágica que não pode acontecer”, no qual, apesar do nome e da atmosfera fantástica, traz toques de realismo. A narrativa revela um evento marcante na vida de uma jovem mulher cujo casamento acabara de se desfazer. Livre de um relacionamento o qual nunca lhe fez feliz, a jovem aproveita a liberdade recém adquirida para se arrumar como há muito tempo não fazia e sair com as amigas para ir ao circo. Porém, ao chegarem ao local, ela não se agrada da apresentação e resolve esperar as amigas do lado de fora do circo.

Neste momento, a narrativa nos chama atenção para o fato de que, ainda que o casamento da personagem não a fizesse feliz, a sociedade em que se encontra a faz sentir-se desprotegida pelo simples fato de ser mulher e estar desacompanhada, na rua, à noite. Isso até que um desconhecido aparece. Um homem do circo, que se aproxima e lhe faz companhia enquanto espera as amigas. Porém, ainda que seja um estranho, sua presença tranquiliza a personagem.

Sobre este personagem, nunca nos é revelado qual exatamente é sua deformidade, o que o torna excluído da sociedade, somente nos dá a entender que sua aparência não é agradável de acordo com os padrões da sociedade, o que cria um mistério em torno do personagem. Porém, seu comportamento doce e a beleza de seus olhos azuis encantam a protagonista, que se sente valorizada por esse homem como nunca ocorrera com seu ex-marido. E é aí que a mágica poderia acontecer, mas não pode. Porque a jovem diz ver neste homem uma chance de ser feliz, de viver um conto de fadas, no entanto, a realidade é mais cruel do que isso.

Com uma narrativa doce e bem construída, Mellvee nos revela uma dura realidade envolta neste toque de magia e, ainda que para a personagem, a mágica não possa acontecer – pelo menos não para sempre – a experiência da leitura em si já é o suficiente para trazer aos leitores um quê de magia até mesmo para os dias mais cinzas.

Enfim, após a leitura do livro de Mellvee, muitas reflexões podem surtir, uma delas sendo que, apesar de o nome do conto final ser A Mágica que Não Pode Acontecer, ironicamente leitores podem até mesmo acreditar em mágica exatamente após ler esta obra: pois a escrita de Mellvee faz a mágica da literatura acontecer, tocando leitores com narrativas realisticamente mágicas e inesquecíveis.

 

Sobre a autora:

Fernanda Mellvee nasceu sob a lua nova de uma quinta-feira tempestuosa, quando ainda fazia frio em agosto. Além de escritora, é formada em Letras e mestra em Literatura Comparada (UFRGS). A autora possui contos e poemas publicados em antologias no Brasil e no exterior, bem como se dedica à tradução literária, tendo realizado a tradução de textos de Joseph Conrad, William John Locke, entre outros. Além desta obra, publicou os romances: Amarga Neblina, que foi finalista do Prêmio Kindle de Literatura em 2018, e Atrás da cortina (2020). Ela segue acreditando que a fantasia nos ajuda a enfrentar a realidade deste presente distópico.


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