Oscar 2022 | Spencer, a solenidade solitária de Diana

Montagem: Marina Franconeti

Enormes campos a perder de vista. Tiros e caça, carros chegando para a véspera de Natal. Todos precisam chegar antes da rainha. Mas uma pessoa se atrasa.

Spencer, filme que ganha o sobrenome de Diana, a Princesa de Gales, aposta em trazer um passeio labiríntico pela mente da jovem princesa solitária. Ele se inicia dizendo-se uma fábula de uma tragédia real, e este é o verdadeiro tom da obra. Uma princesa que deseja sair do castelo e romper com as solenidades.

O filme apresenta os três dias em que a família real se reúne para comemorar o Natal. Argumenta-se que este foi o último período do casamento de Diana com Príncipe Charles.

Tudo reúne uma tensão absurda, a começar pelo ótimo arranjo nervoso dos violinos e da trilha sonora. O colar de pérolas enforca o pescoço de Diana, é o mesmo da amante do marido. As vestes planejadas pela realeza parecem ironicamente equivocadas para os padrões da princesa. Diana deseja desesperadamente ser vista como é. Mesmo que seja um recorte ousado pelas cortinas da janela, mesmo que seja seu sofrimento. Pelo menos é mais humano do que o protocolo.

Todo o filme Spencer nos conduz pela mente da princesa. Kristen Stewart encarna muito bem os gestos, o sotaque e o tom de voz da personagem histórica, dando-lhe força e fragilidade, criando de fato a sensação de vermos Diana. À primeira vista, pode parecer um filme sem exatamente uma trama formatada. No entanto, é um grande mergulho na mente de uma personagem.

Um dos pôsteres do filme ‘Spencer’

Apesar de The Crown explorar muito bem as faces de Diana, Spencer colabora para sentirmos o confinamento real, nesse duplo sentido, onde o labirinto mental se confunde com o vazio dos grandes salões e quartos preservados no Palácio de Kensington. Diana chega a dizer que naquele pó devem estar os restos de pele de falecidos importantes da realeza. A carga do quarto confina não apenas a memória da rainha Vitória, mas o próprio ser que habita aquelas paredes.

O ritmo do filme tem uma lentidão solene, muito bem explorada para que seja possível sentir o arrastar das posições e dos rituais. Alguns deles bem absurdos, como caçar faisões, pesar os convidados só porque o Príncipe Albert o fez lá no passado. E Diana percebe isso.

Paira, em Spencer, algo de gótico e trágico. Pois é o fantasma de Ana Bolena, excelente adição à trama, que leva Diana a sentir-se como deslocada e injustiçada. Acusada de trair o rei Henrique VIII, Ana Bolena foi executada de forma cruel sob acusação de adultério e incesto. Muitos historiadores defendem que Ana Bolena não traiu o rei, e é nessa teoria em que o filme se apoia. Diana se identifica com a personagem, ao mesmo tempo em que a própria realeza a vê como esse perigo feminino do descontrole.

O grande mérito de Steven Knight ao dirigir Spencer é levar o espectador ao universo dos palácios e do sentimento de que não há futuro, apenas passado encapsulado e envelhecido. Onde nada mais novo brota. Até as crianças são convertidas para esse novo ambiente. Diana era uma flor selvagem e nova demais para um ambiente de clausura, onde nem luz passava pelas cortinas. Ao longo do filme, vamos acompanhando os limites psicológicos sendo testados, tanto de forma veemente quanto sutil, pois a ideia é proibir qualquer avanço da princesa.

Há vários instantes que simbolizam Diana, no filme, querendo romper: o desejo de cortar a cerca da antiga casa, o corte das cortinas e dos vestidos, as várias provações psicológicas. Enfim, Spencer provoca o desejo de rasgar protocolos por ela, e correr é a única alternativa, romper os laços, arrancar as pérolas, e armar um espantalho para afastar de vez o peso da tradição.

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