‘Feios, sujos e malvados’, de Ettore Scola (1976)

*Texto escrito por mim, mas com colaboração direta de ideias da Evelin Padilha Vigil.

           

Ettore Scola certamente está entre os grandes diretores italianos. Talvez se ofusque um pouco por causa do tamanho de um Fellini ou de um Antonioni, é compreensível, mas ainda sim se trata de um grande diretor. Assisti a três longas do diretor, Um dia muito especial (1977), Nós que nos amávamos tanto (1974), e este, objeto deste texto. Feios, sujos e malvados (Brutti, sporchi e cattivi em italiano), de 1976, venceu o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes.

Pelo título já podemos intuir uma ironia que acompanhará o filme, principalmente em seus momentos de humor, fato este que complementa a crítica social trazida pela película. Feios, sujos e malvados são adjetivos referentes a Giacinto Mazzatella (Nino Manfredi) e sua família, que moram numa casa pequena e precária na periferia de Roma. Ele, ex-militar, tem um dinheiro em espécie guardado, objeto ao qual é obcecado e sovina.

Por que ironia, neste caso? Porque para além da superficialidade das palavras, são personagens e relações complexas que ali se desenvolvem: o patriarcalismo violento de Giacinto, que guarda seu dinheiro para seus porres diários, fere sua esposa com uma faca e traz uma prostituta para morar na casa, e ao passo que reclama diariamente da sua vida, não utiliza seu dinheiro para uma mudança; os filhos e/ou parentes (o grau de parentesco é opaco no filme), que se tratam de uma forma emaranhada, sem limites de relação ou privacidade – há cenas grotescas de sexo entre eles sem haja algum “sentido” naquilo.

Há momentos de humor que também podem ser vistos sob a ótica da ironia, por exemplo em cenas de violência em que há elementos derrisórios, que em verdade aumentam aquela tensão; ou em passagens nas quais a contradição se explicita, como num batismo, em que Giacinto repete as palavras bondosas do padre, mas bate numa criança que faz travessuras naquele local. Aliás, as cenas são muito bem dirigidas e conferem sentido à narrativa, seja através de seus enquadramentos ou movimentos.

A primeira e a última cena são planos-sequência muito bonitos, o último em especial, em que a câmera percorre desde a área interna à externa da casa, congelando em fim no último plano. Este é um exemplo do que acontece em partes do filme: a lógica da repetição (devo a Evelin essa sacada). O filme se repete muito, seja nas relações, nos enquadramentos, nos sons, e isso representa a própria repetição da desigualdade social ali caracterizada e perpetuada. Os enquadramentos sempre da periferia ao centro, do morro onde moram para os condomínios em construção na parte de baixo, reforçam essa ideia (lembrando de enquadramentos de Que horas ela volta? no qual os quadros fotografados são sempre da cozinha para a sala, nunca o contrário).

Um filme triste, violento, com pitadas de humor, esta é a comédia dramática de Ettore Scola. Um longa que representa filmicamente muito bem aquela realidade social, longe do glamour tradicional da capital italiana, ao mesmo tempo em que contribui para uma crítica social potente em se tratando de cinema.

Rodrigo Mendes

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