Em sua primeira participação na mostra, Anna Maria Maiolino recebe Leão de Ouro por sua obra

“X”, série FOTOPOEMAÇÃO, 1974 – Anna Maria Maiolino. Créditos: Galeria Luisa Strina
A artista ítalo-brasileira Anna Maria Maiolino irá receber o Leão de Ouro pela obra que será parte da mostra da próxima edição da Bienal de Veneza, em 2024. A homenagem foi aprovada nesta sexta-feira, 03 de novembro, pelo conselho de administração da Bienal. Sua premiação acontecerá no dia 20 de abril do próximo ano, na própria data de inauguração da exposição ao público. Nil Yalter, artista turca, também receberá o Leão de Ouro honorário ao lado da brasileira.
Segundo a Galeria Luisa Strina, que representa Maiolino, sua obra não se restringe a um único meio, como acontece com boa parte dos artistas, mas passeia pela poesia, gravura, fotografia, performance, instalação, escultura e, principalmente, pelo desenho. “O amplo espectro de interesses e atitudes que fundamentam sua obra não segue um desenvolvimento linear no próprio trabalho ou no tempo. Pelo contrário, pela diversidade de meios, ela cria uma teia em que temas e atitudes se entrelaçam enquanto significados migram entre um trabalho e outro.”

Obra “Pisar em Ovos”, 1981 – Anna Maria Maiolino. créditos: Sesc CPF
A artista de 81 anos, radicada no Brasil, nasceu na Itália. Aos 12 anos, em meio à Segunda Guerra Mundial, ela e sua família emigraram para o único país que aceitava imigrantes na época, a Venezuela. A partir daí, viveu por muito tempo uma vida nômade entre Buenos Aires, Nova Iorque, Rio de Janeiro e São Paulo, sendo esse último, desde 2005 onde mora e desenvolve sua produção até hoje. Esse movimento a motivou a desenvolver sua obra ao redor das noções de subjetividade, do ‘eu’, de ser estrangeira e de pertencimento.
A premiação em questão trata-se de um acontecimento relevante, uma vez que coloca o Brasil em posição de destaque no cenário global da arte, pois além da homenagem de peso à artista, a curadoria desta edição da mais antiga e importante bienal de arte do mundo é pela primeira vez assinada por um latino-americano, o diretor artístico do MASP, Adriano Pedrosa, por indicação de Roberto Cicutto, diretor geral da Bienal de Veneza desde 2020. Segundo o curador, “esta decisão é particularmente significativa dado o título e o enquadramento da minha exposição, centrada em artistas que viajaram e migraram entre o Norte e o Sul, a Europa e mais além, e vice-versa”, costurando a produção de Maiolino à proposta curatorial de Pedrosa para a bienal.

Adriano Pedrosa posa no MASP. Créditos: Das Artes
O tema norteador da exposição anunciado pelo curador girará ao redor das noções de estrangeiro, e seu título, “Foreigners Everywhere“, se inspira em uma série de escritos de néon de mesmo nome, do coletivo artístico Claire Fontaine, formado pelo britânico James Thornhill e pela italiana Fulvia Carnevale. A série consiste na escrita em diferentes idiomas da frase que dá título a essa edição e que partiu do nome de um coletivo anarquista de ativismo antirracista fundado em Turim no início dos anos 2000, o Stranieri Ovunque (modo como a frase se traduz para o italiano), e carrega uma ambiguidade em cada um dos casos de tradução. O contraste se estende à leitura do slogan que pode se apresentar como um fato ou como ameaça.

Obra da série “Foreigners Everywhere” de Claire Fontaine. Créditos: Galerie Neu
Para o curador, a essência do trabalho de Claire Fontaine “(…) é um mundo cheio de múltiplas crises relativas ao movimento e existência de pessoas através de países, nações, territórios e fronteiras, que refletem os perigos e armadilhas da linguagem, tradução e etnia, expressando diferenças e disparidades condicionadas por identidade, nacionalidade, raça, gênero, sexualidade, riqueza e liberdade”. A partir desse raciocínio, promete trazer para a mostra artistas que transitam entre esses lugares e se percebem nas frestas dessas fronteiras e levantam nas pessoas esse estranhamento. Com a tradução da palavra [estrangeiro] para o italiano, “straniero”, evoca a ideia de um estranho ou estranheza também de uma forma mais geral, permitindo a inclusão de obras de artistas marginalizados.
O foco da mostra será no debate de uma duplicidade que sugere que em todo lugar do mundo nos deparamos com aqueles que percebemos como estrangeiros e, nesse sentido, nas próprias palavras de Pedrosa, “não importa onde você se encontre, você sempre será verdadeiramente e no fundo um estrangeiro”, pautando esse termo de forma ampliada.
Referências:
DAS ARTES. Com curadoria brasileira, Bienal de Veneza anuncia tema para 2024. 2023. In: Das Artes. Disponível em: <https://dasartes.com.br/de-arte-a-z/com-curadoria-brasileira-bienal-de-veneza-anuncia-tema-para-2024/>
ANSA. Bienal de Arte de Veneza dará Leão de Ouro a ítalo-brasileira. 2023. In: Istoé. Disponível em: <https://istoe.com.br/bienal-de-arte-de-veneza-dara-leao-de-ouro-a-italo-brasileira/>
GALERIA LUISA STRINA. Anna Maria Maiolino – Biografia. 2023. In: Galeria Luisa Strina. Disponível em: <https://www.galerialuisastrina.com.br/artists/29-anna-maria-maiolino/biography/>
CASA COR. Anna Maria Maiolino recebe Leão de Ouro na 60ª Bienal de Arte de Veneza. 2023. In: Casa Cor. Disponível em: <https://casacor.abril.com.br/arte/anna-maria-maiolino-leao-de-ouro-60a-bienal-de-arte-veneza/#:~:text=Artista%20pl%C3%A1stica%20%C3%ADtalo%2Dbrasileira%20ser%C3%A1,Arte%20de%20Veneza%2C%20em%202024&text=A%20artista%20pl%C3%A1stica%20%C3%ADtalo%2Dbrasileira,Arte%20de%20Veneza%2C%20em%202024.>
LA BIENNALE. Biennale Arte 2024. In: La Biennale. 2023. Disponível em: <https://www.labiennale.org/en/art/2024>
GOMES, Karina Sergio. Adriano Pedrosa será o curador da Bienal de Arte de Veneza de 2024. In: Metrópoles. 2023. Disponível em: <https://www.metropoles.com/sao-paulo/roteiro-sp/exposicoes-sp/adriano-pedrosa-sera-o-curador-da-bienal-de-arte-de-veneza-de-2024>
ARTE REF. Adriano Pedrosa anuncia tema da próxima Bienal de Veneza. In: Arte Ref. 2023. Disponível em: <https://arteref.com/bienal-1/adriano-pedrosa-anuncia-tema-da-proxima-bienal-de-veneza/>
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