Belíssimas e tocantes imagens do campo de refugiados butaneses no Nepal

Conheci o trabalho de Guillaume Lacourt durante sua mostra na Sorbonne, em Paris. Além da profundidade tocante das emoções capturadas em sua série fotográfica, me impressionei com sua pouca idade: somente 24 anos.

A série em questão – Les derniers refugiés bhoutanais au Népal ou Os últimos refugiados butaneses no Nepal retrata a vida daqueles que saíram do Reino do Butão por causa da política segregacionista de diminuição do crescimento demográfico de grupos minoritários iniciada no final dos anos 80 e início dos anos 90, que resultou na expulsão de 100.000 pessoas, cerca de um sexto de sua população. Após a migração, esses indivíduos se instalaram em um campo de refugiados no Nepal, esperando antes por negociações diplomáticas frustradas e, em seguida, sua transferência para residências definitivas em outros países.

Durante o período de um ano que passou no Nepal, Guillaume se interessou, em um primeiro momento, pela história bem mais conhecida dos refugiados tibetanos, para somente depois focar sua pesquisa no caso do êxodo butanês. Compelido a explorar o tema, o fotógrafo decidiu visitar o campo de refugiados, sem, no entanto, pesquisar profundamente sobre o tema. Segundo ele:

« Je voulais apprendre les faits de leur propres voix, sans avoir une idée préconçue de ce qu’elles étaient avant d’arrivée sur place. Par conséquent, jusqu’à notre première rencontre, j’ai refusé de me documenter et j’ai pris la résolution d’aller sur place mener ma propre enquête. »

« Eu queria tomar conhecimento dos fatos através de sua própria voz, sem ter uma ideia pré-concebida antes de chegar lá. Consequentemente, até nosso primeiro encontro, eu me recusei a documentar e tomei a decisão de ir ao local fazer minha própria investigação. »

Inicialmente, sem possuir informações, contato ou autorização da UNHCR – United Nations High Comissioner for Refugees ou Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados – para adentrar o local, Guillaume, hesitante, se dirigiu aos distritos nos quais estão localizados os campos e conversou com seus moradores. Sentindo-se mais confiante com as informações obtidas, se decidiu tentar a sorte e depois um caminho relativamente difícil – uma viagem de ônibus e uma boa hora de caminhada – chegou as portas do campo, onde um garoto pouco mais velho que ele e habitante do local o convidou para ficar com sua família. Assim, o fotógrafo se aproximou dos moradores e, graças ao domínio do nepalês, criou verdadeiros laços de amizade, vivendo ali por dois meses e meio, se considerarmos todo o tempo passado lá durante as cinco visitas que realizou.


Shreejana, 16 anos, e seu sobrinho Ayush. Os dois nasceram no campo e jamais conheceram o país de seus pais.

Inicialmente, o local contava com mais de 100.000 habitantes em condições bastante precárias. Quando fotografado por Guillaume esse número já havia sido reduzido a um terço, pois boa parte dos refugiados já havia partido para outros países que os acolheram. Entretanto, alguns deles se recusam a partir, pois ainda acreditam que poderão voltar a sua terra natal.

Graças ao seu belíssimo trabalho, o jovem fotógrafo foi escolhido dentre centenas de candidatos a receber o célebre prêmio Grand Prix Photoreportage Étudiant – Grande Prêmio de Fotorreportagem Estudante – da revista francesa Paris Match, em 2013.

Ao ter sido questionado sobre futuros projetos, Guillaume afirmou que ainda se interessa no tema dos refugiados butaneses, dessa vez pensando em retratar as famílias já instaladas em lares definitivos em outros países, com as quais mantém contato.

Vivendo no momento no Laos, também pretende aprender a língua local e realizar outras séries fotográficas no sudoeste da Ásia.


À espera dos refugiados no pátio da unidade médica do campo. Antes de sua partida ao país que lhes acolherá, cada candidato é submetido a um rigoroso exame de saúde.


No caminho que separa as cabanas de habitação dos ônibus que partem para o aeroporto, os próximos se juntam, transportando juntos os 20 quilos de bagagem autorizados por pessoa para a partida.


Duas irmãs se despedem sem saber a data de seu reencontro.


O racionamento acontece duas vezes por mês. A proibição de trabalhar fora do campo priva os refugiados de renda suficiente e os limita a uma alimentação básica.


Rajman Tamang é professor. Ele segura a bandeira do Butão confeccionada por seus alunos. Rajman ensina aos jovens alunos de sua classe o dzongkha, a língua oficial do Butão.


Momento de adeus. Esperando sua vez, os refugiados se despedem de seus companheiros, os quais o dia da partida chegou.


As fortes chuvas da monção encheram o Tutawa, rio vizinho ao campo. Os refugiados se apressam para recuperar pedaços de madeira na corrente que servirão para o fogo das cozinhas.


Mohan voltando ao seu novo domicílio para encontrar sua esposa e seus filhos. Originário de um campo de refugiados butanês, ele está abrigado há dois anos nos Países Baixos. Três vezes por semana, ele frequenta o curso de neerlandês (holandês) com o objetivo de fazer seu exame linguístico, indispensável ao acesso à cidadania neerlandesa (holandesa).

Veja mais imagens da série no site do fotógrafo (em francês e inglês):

http://www.guillaumelacourt.com

Revisado por Mario Lousada

Fontes complementares:

Lea Sarah GOLDSTEIN, “Coup de coeur – Interview Guillaume Lacourt” in Cahiers de la photographie, N. 8, 2014, p. 24 e 25.

http://www.upp-auteurs.fr/actualites.php?actualite=1005 (Consultado em 08/07/2014).

http://www.univ-paris1.fr/services/communication/evenements/exposition-les-derniers-refugies-bhoutanais-au-nepal/ (Consultado em 08/07/2014).

http://grand-prix-photo-reportage.parismatch.com/2013/Les-derniers-refugies-bhoutanais-au-Nepal-515377#515381 (Consultado em 08/07/2014).

http://www.guillaumelacourt.com/fr/histoires#1 (Consultado em 08/07/2014).

*O copyright de todas as imagens pertence ao fotógrafo Guillaume Lacourt que gentilmente permitiu sua publicação para este artigo.

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