Escrevi-me nu às beiras

Nu. Pelado. Despido. Pele crua estica ao fugir do assoalho e regressa brutal e medrosa às nádegas. Corpo esgueira-se pelas beiras em busca de uma dose de existência ou de uísque ou do conforto que não arranjara na última manhã. Improdutiva. Inválida. Irritante.

Sartre, se o visse nu, riria e diria que a vida por si só já é inválida, haja vista que a morte é a nadificação de todos os nossos projetos. É a “nádeficação”.

Ao invés de aprender métrica com Ovídio, aprendera com seus pelos do saco (Termo chulo, lembrar de cortar). Era o dístico elegíaco das bolas. Sim, com verso metrificado, 16cm desde a ponta ao cabo. Modéstia parte, um verdadeiro Desdemono.

“Por que a porra dos dedos escrevem?”, pensava enquanto o desejo era de que qualquer outra parte do corpo possuísse esta função, levando em consideração que a primeira citada fizera-se inválida como a última manhã – a não ser no que concerne às sessões de auto-amor. Uma, duas, três, quatro por dia.

Mordida de inseto… no canto… superior esquerdo… das costas. “Coça pra caralho”. O sol de pó de mico do diabo. Tumor que vem do externo e marca a pele com a praga do mundo palpável. A praga da materialização que não lhe era de menor interesse quando o foco de um recorte era o próprio corpo.

Unha encravada. Quantas entrelinhas buliçosas entre os dez dedos dos dois pés de dezoito atos com milhares de cenas e sequelas. Quem precisa de referências quando essas estão na própria carne? E quem precisa de carne quando se tem soja?

Sexo. Milhares de células roçando umas nas outras todos os dias em todas as horas e segundos. Espinha dorsal aguardando ser arrancada e utilizada em algo maléfico na ceia de natal. E tudo se mistura, o sexo com as fezes e urina e oleosidade da pele salgada e do óleo de cozinha. Urina salgada e vinagre. Corpos salgados vegetando refogados no mar morto.

E tudo é tão passageiro. O texto passa e você nem vê e o tempo passa e você nem vê e o texto morre e tu deixas de o ver ao mesmo tempo em que a linguagem periclitante muda e tu não percebeste o fato de que tudo voltara a comportar-se como antes de uma morte anterior.

Texto. “Meu Deus, o texto”. Sobre o que ele ia escrever? Permanece acordado esgueirando-se pelas beiras em busca de uma dose de existência ou de uísque ou do conforto que não arranjara na última manhã. “Conhece-te a tua própria bunda”. Esta será a poesia em prosa dramatúrgica clássica do Século XXI.

Imagem de capa: Loneliness, por Hans Thoma (National Museum in Warsaw).

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