OBRAS INQUIETAS 04. “O mundo de Christina” (1948), Andrew Wyeth


“O mundo de Christina” (1948), Andrew Wyeth

Deitada no campo onde o trigo foi recém-colhido, a jovem contempla o sol frio do fim de outono a lamber as telhas da sua casa. Arrastando-se no campo, a aleijada ambiciona somente chegar até a sua cama, tão longe, tão no horizonte, antes que a chuva transforme o percurso em uma longa sucessão de barro e medo. Recostada na grama, a mulher escuta os murmúrios sôfregos do artista enquanto deposita tinta na tela, uma pincelada lenta e excruciante de cada vez. Ainda ofegante depois da queda que colocou fim à sua corrida, a adolescente olha para a casa, estremecendo ao ver a silhueta nervosa do pai a lhe aguardar. Rastejando no chão, que insiste em cortar de novo os seus joelhos em eterna cicatrização, joelhos de quem não consegue mais ficar ereto, a doente colhe verduras, pretextando ainda ter alguma utilidade para a família. A esposa do artista sufoca um bocejo, esperando que ele termine logo aquela porcaria de quadro, ela precisa fazer o jantar ainda. O pintor olha as espáduas da sua mulher e surpreende-se ao imaginar as costas nuas da outra, a rastejante, e lembra os ossos cortando as omoplatas, o desenho da coluna vertebral por baixo da pele cremosa, e mexe o pincel com força redobrada. O silêncio, ninguém nunca soube o quão bom é o silêncio recheado de vento no meio do campo de trigo; ali ninguém me julga, ali eu sou ninguém. A solidão, ninguém nunca soube o quão horrível é se sentir sozinho quando estamos rastejando atrás da boa vontade alheia. O artista olha as costas da sua esposa e pensa na musa disforme para quem construiu um mundo de tinta; a esposa pensa no jantar do pintor e no quão inusitado é servir de modelo para uma aleijada. Enquanto isso, no mundo de Christina, o verdadeiro, arrasta-se a mulher que não possui esperança alguma de salvação – os primeiros pingos começam a cair. Christina chora, mas o quadro futuro esconderá o desespero do seu rosto: o chão é um mundo hostil para quem se arrasta.

Fonte da imagem: http://www.moma.org/collection/works/78455

 

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