Vitral: Uma arte de luz e cores

Vitrais são como mosaicos coloridos e resplandecentes que quando atravessados pela luz, conferem uma aura celestial aos lugares onde se encontram.

Vitrais coloridos já existiam nas basílicas paleocristãs, tanto em Roma quanto em Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente. No início, esses pedacinhos de vidro eram unidos através de gesso, pedra, mármore ou madeira. Porém, o apogeu do vitral foi alcançado na Idade Média, principalmente na França, no período gótico, onde a evolução na maneira de construir permitiu a presença de grandes janelas vidradas nos muros das Igrejas, que antes possuíam pequenas aberturas. A luz, passando por entre finos pedaços de vidro colorido, criava dentro das igrejas uma aura mística, representando a luz divina emanada por Deus.


Detalhe de um vitral na Catedral de Colônia, Alemanha

Nessa época, no lugar dos diversos materiais utilizados anteriormente, varetas de chumbo e grandes barras de ferro mantinham o vidro no lugar, criando assim um contraste entre a coloração escura dos primeiros materiais e o colorido luminoso do segundo. Além disso, os pedaços de vidro também poderiam ser pintados com uma tinta escura a base de óxidos metálicos, para representar pequenos detalhes e o rosto dos personagens, em uma técnica chama grisalha, do francês “grisaille”.


Vitral em preparação

Dependendo do contexto onde o vitral seria inserido, este poderia apresentar em sua composição desenhos geométricos, arabescos, brasões e monogramas, ou ainda histórias e personagens da história santa. Os vitrais dos monastérios e igrejas da ordem dos cistercienses, por exemplo, sempre apresentavam colorações menos vivas, enquanto que em grandes catedrais góticas, tais como na Notre-Dame de Chartres ou na Notre-Dame de Paris, os vitrais apresentam um turbilhão de cores e imagens, com a presença marcante do vermelho e do azul escuro, cores simbólicas no cristianismo medieval.


Catedral Notre-Dame de Chartres


Vitral da Catedral de Chartres


Detalhe do alto do vitral acima

Nas igrejas, além de decorar o ambiente, os vitrais, com suas imagens bíblicas acumulavam diversas funções. Ou seja, estas tornavam a divindade presente, glorificavam-na e relembravam os grandes momentos da história santa. Frequentemente, fala-se das imagens cristãs como “Bíblia dos iletrados”, nas quais os cristãos poderiam aprender mesmo sem saber ler. Porém, essa noção deve ser ponderada, pois em muitos casos a iconografia dessas imagens era muito complexa e de difícil compreensão. Além disso, nas igrejas, a maioria delas se encontra no alto ou em lugares distantes do olhar contemplativo do fiel.


Detalhe do célebre vitral da Árvore de Jessé, Catedral de Chartes, França.

Também nos castelos os vitrais eram muito presentes, nas capelas deste locais e frequentemente apresentavam as armas de seu proprietário.


Vitral renascentista de tema mitológico na Galeria de Psiquê, representando personagem de mesmo nome.
Castelo de Chantilly, França.


Armas da monarquia francesa e do ducado da Bretanha no Castelo de Blois, França.


Cidade de Vincennes vista por umas janelas com um desenho de vitral bastante simples no Castelo de Vincennes.


Vitral profano renascentista conservado no Kunstpalast, Düsseldorf, Alemanha.

No século XVIII o vitral despertou o interesse de colecionadores, historiadores e artistas. Nessa época, a técnica medieval foi sendo redescoberta e essas obras da Idade Média começaram a ser restaurados. A criação de novas peças aconteceu impulsionada primeiramente pela arquitetura Neogótica, e em seguida pelo Art Nouveau, também chamado de Style 1900. Essa corrente artística prezava as técnicas artesanais da Idade Média, sendo influenciada pelo movimento inglês do Arts & Crafts. Na Inglaterra, também os pintores pré-rafaelitas se interessaram pela técnica.


Típico vitral Art Nouveau composto de formas orgânicas conservado no Kunstpalast em Düsseldorf, Alemanha.

Na arquitetura, alguns dos maiores representantes do Art Nouveau foram Horta, na Bélgica, Guimard, na França, e Gaudí, na Espanha. Estes empregaram frequentemente vitrais em suas construções, cheios de arabescos e formas derivadas na natureza, típicas desse estilo.

Louis Comfort Tiffany, americano e filho do proprietário da célebre joalheria, levou o vitral Art Nouveau a seu esplendor. Ele criou um tipo de vitral único, que no lugar do chumbo, usa o cobre para contornar os pedaços de vidro que, diferente das tendências anteriores, podiam ser opacos. O uso do cobre permitiu que o vitral ganhasse, literalmente, uma nova dimensão. Os vitrais poderiam não somente ser feitos como placas para serem colocadas nas janelas, como os vitrais medievais, mas poderiam também tomar as formas mais diversas, se adequando a objetos decorativos, por exemplo, abajures, os mais famosos criados por Tiffany, que decorou até mesmo a Casa Branca.


Abajour Tiffany


Vitral Tiffany

Em seguida, o vitral assume formas contemporâneas e até mesmo abstratas, se adequando de maneira monumental à arquitetura desse período. Alguns artistas célebres desenharam vitrais, tais como Chagall, que criou a decoração da Sinagoga de Jerusalém.
Muito frequentes são os exemplos desses vitrais contemporâneos em países do norte, principalmente na Alemanha, onde muitas obras-primas medievais foram destruídas durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial.


Vitral contemporâneo no Centre International du Vitrail em Chartes, França.


Detalhe de um vitral contemporâneo representando os quatro evangelistas.
Na imagem, o touro símbolo de São Lucas. Düsseldorf, Alemanha.


Vitral contemporâneo na capela do Castelo de Amboise, França.

No Brasil, um dos meus exemplos contemporâneos favoritos dessa arte preenche os altos vãos das janelas da Catedral Metropolitana de Brasília desenhada por Niemeyer. Os tons azuis, transparentes e brancos, junto às esculturas de anjos suspensas, conferem uma áura verdadeiramente celestial ao monumento.


Abóbada da Catedral Metropolitana de Brasília

Bibliografia:

Catherine BRISAC, Louis GRODECKI, Vitrail, Enciclopaedia Universalis.
James L. YARNALL, Louis Comfort Tiffany, American National Biography Online.

Fonte das imagens: Imagens da autora.

* Aline Pascholati estudou a técnica do vitral no Centre International du Vitrail em Chartes, na França e cria seus próprios vitrais desde então.

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