OBRA DE ARTE DA SEMANA: Aquarela de Terezin (1944) de Franz Peter Kien

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Franz Peter Kien, Aquarela de Terezin, 1944.

Em diversas épocas, a arte foi acusada de mascarar biografias, exaltar instituições totalitárias, encobrir violências contra os direitos humanos. Mas no caso de Franz Peter Kien, sua arte serviu para denunciar um dos maiores horrores da segunda guerra mundial, cuja propaganda nazista tentou esconder através da utilização da propaganda.

            Peter Kien terminou a escola formal com honras e reconhecimento a respeito de suas habilidades com a escrita e o desenho e no mesmo ano entrou na Academia de Belas Artes de Praga e na escola de Design Gráfico Officina Pragensis.

            Em 1939, quando leis racistas passaram a vigorar na Alemanha, Kien foi expulso da Academia, mas continuou a estudar na escola de design gráfico. Após se casar com Ilse Stranska em 1940, Kien tentou sair da Alemanha com sua família. Nesses anos, Kien produziu mais de mil desenhos, esboços e pinturas durante esses anos antes dos fatos que ocorrem a partir de 1941. Até então suas pinturas eram iluminadas e transmitiam certa esperança em contraste com seus escritos que eram trágicos, melancólicos e sem esperança alguma e de certa forma são o prelúdio dos anos seguintes na vida de Kien.

            Em 1941, é deportado para Terezin (Theresienstadt) uma região da Czechoslovakia (país de origem de Kien e sua família) então ocupada pela Alemanha Nazista, que ficou conhecido como o Gueto de Terezin, cuja entrada possuía os dizeres ARBEIT MACHT FREI, em tradução livre, “O Trabalho o Fará Livre”. Kien trabalhou na ala administrativa do campo de concentração e com materiais adquiridos escondidos, continuou a produzir arte dentro do campo de concentração.

            Em 16 de outubro de 1944, Peter Kien e sua família são deportados para Auschwitz com seus pais e sua esposa. Segundo os documentos do campo de concentração, Kien morre assim que chega a Auschwitz de “doença”. Ninguém de sua família sobrevive. Após a derrota da Alemanha e com a comprovação que o campo de Auschwitz era um campo de extermínio e não de concentração, a versão foi atualizada e consta que Peter Kien foi brutalmente assassinado na chegada ao campo em 1944. Ele tinha apenas 25 anos de idade.

            A aquarela de Terezin é uma obra forte por seu contexto histórico e pelos tons avermelhados utilizados pelo artista. A técnica de aquarela tão conhecida por sua delicadeza e suavidade, seus tons pastéis, ganham ares infernais nos tons rubros empregados pelo artista, dando a sensação de calor. Na composição, é possível ver uma escada que desce para ao que parece uma grande vala (e que segundo relatos, prisioneiros tinham que cavar a própria cova antes de serem mortos).

A obra em si uma reflexão a respeito da técnica em si: tão utilizada por grandes artistas que a empregaram com o objetivo de registrar suas experiências, locais e viagens, demonstrando a beleza, a riqueza de tons e iluminação de um local, é utilizada para expor o desumano, o cruel e o horror que eram escondidos atrás de comerciais, mostrando trabalhadores felizes, quando na verdade estavam sendo massacrados e mortos. A aquarela de Terezin transborda o campo da arte, sendo um dos documentos mais importantes que retratam com a verdade o interior de um campo de concentração e as condições desumanas dos internos.

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