A solidão e a solitude

“Os reis e os filósofos cagam, e as damas também” – Michel de Montaigne

Um mundo com 7 bilhões de habitantes conectados virtualmente por dezenas de redes sociais, uma facilidade de comunicação comparável com a parábola da torre de Babel, meios de transporte abundantes e acessíveis. Estamos próximos, juntos, íntimos e carnais como nunca antes. Gritamos livremente nossos desejos e frustrações, mostramos o nosso pior e nosso melhor. Oferecemo-nos livremente a quem nos queira levar ao seu mundo e levamos para o nosso quem aceitar o convite. Temos certeza que lá fora há quem pense, aja, pareça conosco.

Entretanto, é a solidão a maior aflição da espécie, a fuga dela o tema mais recorrente na nossa cultura. Obcecados, pedimos ao estado e aos deuses que chancelem a obrigação de o próximo nunca nos abandonar, sob pena de pensões ou danação eterna. Temerosos de forças que não conseguimos explicar, preferimos nos esconder a explorar o mundo e tornar-nos aos outros seres humanos: sentar para uma refeição sozinho? Jamais, melhor suportar uma companhia intragável, até nociva, a enfrentar os olhares inquisitórios dos demais fregueses. Temerosos do “morrer sozinho”, entregamos nossa essência à resignação – e morremos sozinhos do mesmo jeito.

A própria reflexão acerca da solidão é um tabu, fonte de um desconforto inexplicável, evitado, mal visto, rejeitado. Melhor falar da política, do tempo, do futebol. É como falar de cocô. Sim, cocô. Semelhante ao cocô, a solidão aflige a absolutamente todos os seres humanos. Diferente do cocô, somos hipócritas à respeito solidão. A solidão é tratada como patologia, desvio a ser acertado, doença a ser curada, castigo a ser purgado. Acontece que reis e filósofos sentem solidão – assim como modelos, milionários e artistas. Todos, sem exceção, sentimos seu peso.

Como superar essa hipocrisia, tão enraizada? O que fazer para tornar essa característica humana aceita pelo o que é: uma mera característica? Como transformar a epidemia da solidão em uma oportunidade de crescimento humano? Semântica.

Interpretemos a nossa solidão, o estado do que está só, com toda a carga negativa que somos programados a dar a este estado, como solitude. Um teólogo de nome Paul Tillich cunhou uma frase de muito poder: “A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho”.

Exercite a sua solitude, admire a solitude alheia, entenda que o outro nunca vai preencher o vazio que você chama de solidão, e olhe para o próximo com certeza que este compartilha essa mesma sensação que você tenta esconder com isolamento ou maquiar com companhias vazia. Quem vos escreve, leitor, nunca o viu cagando, mas sabe que o faz. Também nunca o viu sofrer de solidão, mas sabe que sofre. Sendo inevitável e universal, transforme sua solidão em solitude, abrindo espaço na sua vida para novas experiências e novas companhias. Preencha-se de si mesmo, e torna seu olhar para a beleza ao redor, ao invés dessa escuridão interior.

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