OBRA DE ARTE DA SEMANA: Juning comendo uma cereja, de Frédéric Léglise

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Frédéric Léglise, Juning comendo uma cereja, óleo, folha de ouro e esmalte sobre tela, 54,5 x 45,5 cm, 2012.

Conheci o artista francês Frédéric Léglise em um vernissage de uma galeria parisiense, acompanhado de sua esposa jovial como uma menina, de uma maneira fofa como só as asiáticas conseguem ser. Ele me falou de seu trabalho e me convidou a posar como modelo. Eu poderia me mostrar para as lentes da câmera, o primeiro passo antes da pintura propriamente dita, como quisesse. E é exatamente esse o interessante do seu trabalho, que retrata exclusivamente mulheres, exceto nos seus autorretratos. Ou seja, diversas facetas do universo da sensualidade feminina são representadas em uma pluralidade de expressões e personalidades. As mulheres se apresentam como querem, mas as pinceladas e o olhar do artista sempre conseguem captar algo talvez não imaginado nem mesmo pela própria retratada. Algumas imagens podem chocar alguns dos nossos queridos conservadores brasileiros, desacostumados ao nudismo e tratando a sexualidade como tabu, enquanto que outras pinturas parecem a retratação de uma tarde animada e descontraída entre amigas.

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Frédéric Léglise, Sem título, aquarela, 55 x 75 cm.

A obra que escolhi analisar – e que escolha difícil! – fica no meio termo entre um extremo e outro. A garota nos olha desafiadoramente, enquanto come uma cereja, que bem pode passar por um pirulito, se vista rapidamente e sem a dica do título. A alusão sexual do doce não é exclusiva ao português; em francês, pirulito é “sucette”, derivado do verbo “sucer”, chupar. Inclusive, nesse sentido, a famosa canção Les Sucettes, escrita por Serge Gainsbourg e cantada por France Gall, parece aquelas nossas marchinhas de carnaval, repletas de duplos significados.

Sobre o olhar da personagem, a afirmação de Valérie e Daniel, do site e da revista Point Contemporain, acerta em cheio. Segundo eles:

« […] rien n’explique l’inconfort dans lequel se trouve le spectateur. La culpabilité peut-être. Celle du voyeur vu. »

« Nada explica o desconforto no qual se encontra o espectador. A culpa talvez. Aquela do voyeur visto ».

A roupa sexy de pluminhas, o colar de coração, a cereja-pirulito com ares de convite e o olhar atraem a atenção do voyeur – indivíduo que experimenta prazer sexual ao ver estímulos sexuais, objetos associados à sexualidade ou o próprio ato sexual praticado por outros – porém, o voyeur também é observado pelo olhar penetrante de retratada, Juning, que já apareceu em outras obras do artista.

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Frédéric Léglise, Juning, óleo e folha de ouro sobre tela, 146 x 130 cm, 2011.

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Frédéric Léglise, Juning, óleo e esmalte sobre tela, 114 x 146 cm, 2011.

A sensualidade das obras do artista, segundo ele mesmo, representa a própria sensualidade e o prazer do ato de pintar. Para ele, pintar mulheres é uma maneira de amá-las, a pintura como ato sexual e amoroso. Inclusive, Clare Mary Puyfoulhoux, em seu artigo no site Boum! Bang!, compara o delicado toque do pincel na aplicação de camadas sucessivas de tinta a carícias.

A relação entre o olhar do artista, o ato de pintar e a sensualidade da modelo é bem representada através do interessantíssimo autorretrato com um círculo cinza com a tela O Banho Turco, de Ingres, no meio do rosto, na altura dos olhos.

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Frédéric Léglise, Autorretrato, O banho turco, aquarela sobre livro, 24×19 cm, 2006.

Na famosa obra, conservada no Louvre, mulheres idealizadas e nuas se reúnem em uma casa de banhos em um oriente também idealizado.

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Jean-Baptiste Dominique Ingres, O Banho Turco, óleo sobre tela colocada sobre madeira, 108 x 110cm, 1852-1859, modificada em 1862. Conservada no Museu do Louvre, Paris, França.

Além disso, o nu feminino acaba sendo um arquétipo da pintura no imaginário coletivo. A inspiração de Frédéric, então, vem também dos nus icônicos frequentes nas criações de seus representantes preferidos da história da arte: Picasso, Manet, Cranach, Ingres, De Kooning…

Nuas ou vestidas, ocidentais ou orientais, as mulheres de Frédéric, e ele mesmo, em seus autorretratos, possuem uma carnação bastante rosada, algo entre o real e o plástico de bonecas (Clare Mary Puyfoulhoux).

Além da pintura a óleo, que compõe a maior parte do retrato, o artista usa esmalte para o fundo e folha de ouro para o colar de coração. As superfícies brilhantes, criadas através de finas folhas de metais, esmalte e até glitter, são frequentes na obra de Frédéric. O fundo metalizado, branco ou de outra cor sólida em várias outras obras, sem elementos ou perspectiva, lembra o etéreo e atemporal dos ícones bizantinos – pinturas religiosas do Cristo e de santos – conferindo assim um quê de sagrado e inacessível às mulheres. Elas se encontram em momentos íntimos, mas ainda assim são inacessíveis. A inacessibilidade da mulher, desde as imagens das deusas politeístas ou da Virgem Maria, passando pelas canções do trovadorismo medieval e chegando as celebridades atuais, é certamente um tema bastante difundido.

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Theotokos de Kazan
, cópia do século XVI. Conservada na Catedral de Yelokhov, Moscou, Rússia.

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Frédéric Léglise, Anaïs, óleo, alumínio e glitter sobre tela, 50 x 50 cm, 2012. Coleção particular.

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Frédéric Léglise, Jojo, óleo e glitter sobre tela, 54.5 x 45.5, 2012.

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Frédéric Léglise, Natalia, óleo, ouro, alumínio e esmalte sobre tela, 2012.

Em algumas de suas pinturas, alguns poucos elementos de mobiliário e outros objetos podem ser mostrados, mas o foco são as mulheres e suas atividades.

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Frédéric Léglise, Charline e espelho, óleo e esmalte sobre tela, 116 x 89 cm, 2007. Coleção da Galerie 1900-2000, Paris, França.

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Frédéric Léglise, Jill, Emilie and Valentine no meu estúdio, óleo, folha de ouro e esmalte sobre tela, 195 x130 cm, 2006. Coleção particular.

Além disso, apesar da folha de ouro e o óleo serem materiais bastante tradicionais e da pintura do artista se aproximar mais da realidade do que da abstração, suas obras são, sem dúvida, contemporâneas; e, provavelmente, continuarão sendo em qualquer época, pois mostram parte da essência feminina e sua sensualidade.

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Frédéric Léglise, Ziqiao, Jing e Nan, óleo e esmalte sobre tela, 130 x 195 cm, 2011.

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Frédéric Léglise, Sem título, óleo e folha de ouro sobre tela, 114 x 146 cm, 2013.

Bibliografia :

http://www.fredericleglise.com/ Site oficial do artista (Consultado em 03 de janeiro de 2017).

https://www.boumbang.com/frederic-leglise/ Clare Mary Puyfoulhoux, Frédéric Léglise, « De vous à moi, vous m’avez eu » in Boum ! Bang !, 18 de março de 2016. (Consultado em 03 de janeiro de 2017).

http://www.louvre.fr/oeuvre-notices/le-bain-turc François de Vergnette, « Le Bain Turc » in Louvre. (Consultado em 03 de janeiro de 2017).

http://pointcontemporain.com/frederic-leglise-focus « Frédéric Léglise » in Point Contemporain, 5 de maio de 2015. (Consultado em 03 de janeiro de 2017).

http://pointcontemporain.com/whos-afraid-of-wild-hommage-a-gilles-aillaud-galerie-detais « Who’s afraid of wild ? Hommage à Gilles Aillaud, Galerie Detais » in Point Contemporain, 16 de abril de 2016.

(Consultado em 03 de janeiro de 2017).

Fonte das imagens :

http://www.fredericleglise.com/

https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Banho_turco_(Ingres)#/media/File:Le_Bain_Turc,_by_Jean_Auguste_Dominique_Ingres,_from_C2RMF_retouched.jpg

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