A conversa em sala de aula: Uma abordagem deleuziana

Quando falamos sobre educação formal, sabemos que a Finlândia é o país que está no topo dos índices de qualidade educacional, e um dos motivos é o investimento em pesquisa e a preocupação real com a qualidade e com a formação de seus cidadãos.

Há quase um ano, nos deparamos com a notícia* de que a Finlândia seria o primeiro país a abandonar a divisão curricular das matérias, abolindo a compartimentalização dos conteúdos das áreas do conhecimento, promovendo a integração entre as disciplinas durante aulas que propõem um tema comum.

Diante essa perspectiva, poderíamos imaginar um cenário parecido para a educação brasileira e indo além, aproximando os acontecimentos atuais e os relacionando com a história. Isso é possível ao passo que identificarmos as portas para a aproximação com os alunos. Tecnologia, moda, comportamento entre outros fatores, são meios de promover a integração da vida real do aluno com conceitos presentes na escola, que precisam ser assimilados durante sua formação.

Essa “sondagem”, no entanto só é possível através do processo de escuta desses alunos. E é nesse momento que o conflito começa. Muitos professores travam discussões intermináveis sobre quem tem o direito de falar durante as aulas, e a maioria dos alunos na maioria das vezes optam por escutar os colegas. Cabe ao professor identificar as oportunidades de relacionar sua disciplina com os fatos que os alunos trazem para dentro da sala de aula.

Realizando algumas leituras e pesquisas durante minha graduação em Artes, encontrei algumas publicações que tentam organizar esses elementos de maneira satisfatória para a aplicação e criação de um novo método de ensino, dando maior atenção para a prática interdisciplinar. Durante a pesquisa, descobri a obra do professor doutor campineiro, Silvio Gallo, pedagogista e filósofo de educação, professor da UNICAMP. Em sua obra encontramos uma relação muito forte entre a filosofia de Deleuze e como podemos propor uma nova abordagem educacional a partir de uma nova visão sobre o cenário atual, porém ele faz um alerta antes de abordar alguns caminhos a serem tomados:

“As propostas interdisciplinares, porém, têm apresentado limites muito estreitos, pois esbarram em problemas básicos como, por exemplo, a formação estanque dos próprios professores, que precisam vencer barreiras conceituais para compreender a relação de sua especialidade com as demais áreas do saber.” (GALLO,2003. p. 86)

Gilles Deleuze (1925 – 1995) nunca escreveu sobre educação, mas em suas obras é possível adotar algumas ferramentas de sua filosofia para realizar o que o próprio filósofo disse “Não nos cabe temer ou esperar, mas criar novas armas” (DELEUZE, 1992. p.220). E é necessariamente dessas novas armas que os educadores dessa sociedade contemporânea necessitam para fazer frente à crise da educação. Não conseguiremos inovar a forma de lecionar, se continuarmos a repetir modelos e padrões arcaicos. E dentro da filosofia Deleuziana, podemos retirar novas formas de enxergar o processo de aprendizagem.

Para que possamos tornar essa reforma educacional possível, precisamos de novas formas de expressão para criar novos métodos e conteúdos. Precisamos abandonar a velha prática pedagógica apenas de contemplação de conceitos abstratos e distantes dos alunos, e substituí-los por elementos possíveis, onde essas crianças e jovens possam ter um contato direto com o que estão aprendendo e relacionar estes conceitos com sua própria vida. Pensar não é contemplar o que já foi dito e decorar informações, pensar é criar, e aprender depende da criatividade de relacionar informações e transformá-la em conhecimento, e o papel do educador é o de mediador desse processo.

A conversa em sala de aula é necessária, pois nela está embutido o conhecimento prévio dos alunos em estado bruto. O papel do professor é mediar a aprendizagem através da apresentação de conceitos e técnicas, pois não podemos lançar o aluno na experimentação completamente desinformado, pois a aprendizagem não é algo automático, ele é mediado através da orientação promovida pelo educador. Mas para conseguir atingir o objetivo da assimilação é ir além da teoria e expor o aluno ao tema, fazendo com que ele entre em contato com a materialidade do assunto abordado.

Outro ponto importante do discurso de Deleuze, é que não devemos necessariamente utilizar os mesmos nomes e conceitos, mas adaptá-los da melhor forma para atingir o objetivo principal da função de educador (alguns autores chamam essa adaptação de transposição didática): promover um acontecimento de aprendizagem. O bom professor é aquele que prepara sua aula, e se prepara para ela. A aprendizagem está associada à sensibilidade, assim como também estão os problemas. Logo, a experimentação se dá no processo de sensibilização dos alunos e a aprendizagem ocorre como consequência natural, e para isso é necessário ter um olhar para o que afeta nossos alunos diretamente. Afinal de contas, quem não gosta de uma boa conversa?

 *Link da matéria citada: http://rescola.com.br/finlandia-sera-o-primeiro-pais-do-mundo-a-abolir-a-divisao-do-conteudo-escolar-em-materias/.

Bibliografia

GALLO, Silvio. Deleuze & Educação. 2. Ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

COSTA, Cristina. QUESTÕES DE ARTE: O belo, a percepção estética
e o fazer artístico. – 2ª Ed. Reform. – São Paulo: Moderna, 2004.

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed. 34. 1992.

DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. 2ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 2006.

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