Dois contos sobre humor e vodca para conhecer Mikhail Zóschenko

Um dos maiores escritores da literatura russa do século vinte, Mikhail Mikhailovitch Zóschenko (1894- 1958) talvez tenha sido a maior expressão do espírito de sua época. Associado constantemente ao humor, o autor retratou na maioria das vezes o cotidiano, em situações leves que para alguns leitores apresentavam certa superficialidade, mas que estavam carregadas de crítica social. Contos como “Mulherzinha” (1923) e “Limonada” (1926) expuseram de maneira bem-humorada um grave problema da época soviética: o alcoolismo.

“Eu, é claro, sou do tipo que não bebe. Se bebo, então é de vez em quando, e pouco – por diversão ou pra não perder uma boa companhia.
Mais de duas garrafas, uma atrás da outra, não consumo de jeito nenhum. Certa vez, lembro bem, no dia do meu santo protetor, tomei três litros.”
(…)
– Traga uma última, digo eu.
E assim não larguei. Eu ardia de vontade de largar. Mas as circunstâncias atrapalharam. Como dizem: a vida dita as suas próprias leis. É preciso se submeter” (trad. Denise Sales)

Nos excertos acima, temos dois momentos do conto “Limonada” de 1926. O narrador relata o dia em que teria sido forçado pela circunstância a beber vodca. Mesmo tendo pedido ao garçom uma limonada, o mesmo lhe serviu a bebida alcoólica. O narrador, em todos os momentos manifesta a sua vontade de permanecer sóbrio e revela que pediu outras doses para que não restassem dúvidas quanto à natureza da bebida. Ao final do conto ele se conforma em ser uma vítima do destino.

O conto que está repleto de elementos cômicos, como a maneira que o narrador se refere ao garçom “seu cabeça oca” ou o diagnóstico feito pelo assistente de veterinário em que o paciente (narrador) estaria em “plena desvalorização” com órgãos totalmente comprometidos, dão o tom humorístico da história. O conto que denuncia o drama do alcoolismo e o comércio ilegal de bebidas alcoólicas na sociedade soviética, facilmente pode ser lido como o relato de um trapaceiro, algo sem profundidade. Contos como este podem ter contribuído para a fama de superficial que alguns leitores e críticos atribuíram a Zóschenko. Paralelamente a isso, o autor tornou-se muito popular em sua época, e seus contos, muito breves na maioria das vezes foram muito lidos em sua época.

Outro exemplo em que a comicidade e o drama se mostram lado a lado é o conto “A crise” (1925). O conto que tem início com a exaltação das construções coletivas expõe as condições precárias em que o cidadão soviético vivia.
“Daqui a uns vinte anos, vamos ver, uns vinte anos, ou até menos cada camarada, sem falta vai ter um cômodo inteirinho só pra ele”
(…)
“- Fazer o quê? Em quarto de banho também mora gente boa. E, em último caso – disse ela – dá pra dividir com um biombo. Aqui por exemplo, um budoar para mim, ali a sala de jantar.
(…)
Passou-se menos de um ano, a esposa e eu ganhamos uma criancinha. Demos o nome de Volódka, e fomos tocando. Ali mesmo no quarto de banho, a gente dava banho nele e ia vivendo. ” (Zóschenko, 2012, p.445- 447)

Podemos considerar Mikhail Mikhailovitch Zóschenko alguém que viveu o seu tempo com todas as contradições que ele apresentava. Nos pequenos conflitos do dia-a-dia, o autor revelava os triunfos e as derrotas do cidadão soviético. Suas personagens, por mais que tentassem se adequar ao ideal da época, nem sempre conseguiam resistir às tentações e se entregavam a pequenos prazeres como um ou dois copos de vodca.

Referência bibliográfica:

ZÓSCHENKO, M. Obras reunidas. Leningrado: Khudojestvennaia Literatura, 1986)

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