Dolly, da contista nobel Alice Munro

A solidão é tema presente na sociedade em que vivemos. O medo da morte, ou a incerteza do que (não) virá, também. Envelhecer, que vem junto a este último, aflige por conseguinte. Todos esses sentimentos encontram espaço de destaque em meio à relação do casal principal em Dolly, de Alice Munro.

A decisão do suicídio, logo no início do conto, dá a este um tom sombrio, obscuro. O parágrafo inicial, descrevendo a geografia do local, contribui: era outono, no campo. O casal vivia um pouco longe da cidade. Conversam sobre deixarem a vida enquanto “estão bem”, e com isso evitar o acaso inevitável da morte.

Contudo, a inesperada chegada de Dolly, ou Gwen, faz mudar o rumo da narrativa, que passa a ater-se a essas novas relações (narradora, esposa de Franklin, e Gwen, a forasteira, a intrusa, e a relação não tão nova de Dolly com Franklin).

A falta de vida, de movimento, em que vivem o casal, principalmente a mulher, gera a esta inclusive a vontade de conversar com uma vendedora de cosméticos que aparece uma tarde em sua casa. A discrepância social começa a se fazer notar nesse ponto. A dona da casa é uma mulher erudita, ao passo que a outra é uma simples trabalhadora. O interessante, porém, é que Dolly exerce papeis importantes: o de passatempo (para a mulher) e de lembrança jovial, para Franklin. Ela é o elo e o motivo de uma briga – depois apaziguada – entre o casal.

A solidão da narradora pode ser vista também no seu trabalho: escreve biografias de escritoras e escritores “esquecidos” em seu tempo. É como se ela, através disso, desejasse deixar um legado próprio para não cair no fatídico esquecimento que acomete a quase todos e que naturalmente acometerá a ela.

Através dos nomes das personagens pode-se estabelecer uma relação com o enredo e os sentimentos da narradora, de Gwen e de Franklin. Comecemos pela primeira. O que sabemos da é que tem 71 anos, é professora de matemática e escritora. Não sabemos seu nome. Com esse apagamento, é possível fazer uma analogia ao apagamento de quase todos nós depois da morte. Ela temia este esquecimento. Além do mais, a chegada de Gwen, que depois se mostra como Dolly, ou seja, dois nomes, faz aumentar a aproximação desta com Franklin, ou Frank, ao passo que a esposa se distancia (tudo isso ocorre em um espaço temporal de alguns dias, principalmente de dois – os últimos narrados).

O nome Dolly, a meu ver, soa jovial (mais que Gwen). Franklin, quando se (re)apresenta a ela, se diz Frank (mais jovial também). Todo esse jogo com substantivos próprios, além de interessante, exerce a função de aproximação e distanciamento entre eles, como dito acima.

A chegada inesperada de Dolly trouxe, por um caminho tortuoso, a juventude. Ao final do conto, não temos a morte pré-concebida, mas sim aquela ao acaso (no pensamento da mulher, quando se aflige com a carta enviada ao marido). A narradora sofre com isso. A morte pode vir tão de repente quanto à chegada de Dolly. É difícil conceber a ideia de que se pode morrer a qualquer instante. Para a mulher de Franklin, não bastasse esse medo, Dolly, que já havia se relacionado com Frank há muitos anos, aparece em sua casa, a princípio, sem nenhuma intenção. Sua ida ao hotel, sua apreensão caminhando rápido pela cidade vizinha são personificações maravilhosas do estado de tensão que ela sofreu nesse dia.

Ao fim, a resignação. O casal de idosos encontra-se em casa, normalmente, depois dos acontecimentos. Volta a ideia de morte ao acaso. Não se fala em suicídio. É possível que tenham esquecido disso. A presença de Dolly em sua casa trouxe a vontade de viver. Pelo menos a lembrança disso. Vê-la com energia lavando a louça, fumando, falando sem parar, pode ter sido estranho sob a ótica de superioridade de classe da dona da casa. Mas, agora, não poderia deixar de agradecer a Dolly se o seu intuito for continuar a viver.

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