OBRAS INQUIETAS 28. “Retrato de um coração” (2013), Christian Schloe

Queima como o inferno. Por mais que você tente esquecer, não consegue: está ali, uma chaga viva, cada mínima memória despertando novas dores e ressuscitando as chamas dos gestos não realizados. Tenta pensar em outra coisa, mas a imagem do ente amado insiste em acompanhar os seus passos. Cada mínimo som, cada cheiro mais almiscarado, cada risada surpreendida em um canto do apartamento basta para trazer à tona a ausência tão presente de quem se foi, e isso faz o coração queimar com insuspeitada ardência. Você sufoca em silêncio, e tudo o que gostaria de fazer é mergulhar no poço de lava de recordações que dilacera o seu peito, mas o mundo continua girando ao seu redor, e o tempo vira um amálgama de sensações indefinidas, uma ninfa sombria que tortura os seus pensamentos. Devastado, o sentimento se despedaça em um mar de cinzas incandescentes que insistem em lhe perseguir como milhares de lâminas quentes que se cravam em cada segundo do seu dia, lembrando: você perdeu o amor da sua vida. Pode ser que existam outros amores no futuro, mas, naquele momento de perda, o seu coração triturado jura que é a última pessoa que você amou e que irá lhe amar da mesma maneira (tem razão, pois não existem dois sentimentos iguais). Nunca mais ninguém lhe beijará da mesma forma; nunca mais o corpo da outra será seu. Saber disso lhe machuca mais do que qualquer outra chibata. O coração queima, vulcão que se imaginava pacificado, mas, na verdade, só irrompe quando explode na dor do irremediavelmente perdido. O coração queima em um enterro viking dentro do seu peito, juntando todas as efígies e sonhos de quem um dia lhe amou, e o ar falta, e o mundo encolhe ao redor, e a pessoa que você foi queima junto; a inocência dos sentimentos vai aos poucos se corroendo, até que só resta um animal escorreito, uma criatura sem alma, outro ser que desaprendeu a amar.

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