A necessária franqueza sobre as (não) leituras

Muitos leitores são também compradores de livros compulsivos. Eu diria que a maioria é. Temos o costume de comprar novos livros mesmo quando já possuímos diversos outros que ainda não foram lidos. Isso enseja em uma das diversas angústias existentes na vida do leitor: jamais conseguiremos concluir a leitura de todos os livros que possuímos antes da compra de novos. Isso faz parte da vida de nós, leitores assíduos que possuem o prazer em ter e ver os livros guardados na estante (ou onde quer que estejam, já que muitas vezes o espaço da estante acaba).

Há também aqueles livros que constam em nossas listas de desejos. Almejamos lê-los, cuja vontade pode ter vindo pela leitura de uma resenha da obra, pela indicação de um amigo, pela capa que chamou a atenção ou por ser o lançamento de um autor já conhecido, mas a leitura ainda não foi feita por alguma razão.

Também creio que exista uma outra série de livros não lidos que merecem uma categoria própria: a dos clássicos. Vários são os títulos notáveis, advindos de todos os cantos do mundo, que são tidos como clássicos da literatura mundial. A menção de muitos destes fomenta o debate, tornando a fala daquele que menciona algumas dessas obras em discurso de autoridade. Pudera, vez que os clássicos são clássicos por alguma razão.

Os clássicos são responsáveis por uma das maiores angústias dos leitores, a saber, aquela angústia de não se ter lido muitos deles. É nesse ponto que me insurjo contra aqueles que não prezam pela franqueza, ou seja, que apenas para não “ficar por baixo” (de quê?), mentem com relação a leitura de uma determinada obra.

Vejo tal atitude como sendo demasiadamente deselegante. O fato de a alegação se tratar de uma mentira, não pega bem pela própria inverdade. No meio literário isso não é diferente, pois quem mente dizendo ter lido aquilo que não leu, trata-se de um mentiroso.

Num primeiro momento, é importante evidenciar que sequer há razão para se ter “vergonha” por não ter lido determinada obra. O fato de certo livro figurar como o sucesso de vendas do momento, não obriga que os leitores o tenham lido. De igual modo se diz para com relação aos clássicos. A leitura das grandes obras da literatura mundial é importante, sem dúvidas, mas inexiste qualquer tipo de obrigação imposta no sentido de que todo leitor deve conhecer todos os clássicos – até mesmo porque isso é impossível.

Quantos são os clássicos existentes? Muitos. Até mesmo os mais assíduos leitores contam com suas listas de espera onde existem diversos clássicos ainda a serem lidos.

Mas há muitos leitores que se preocupam com essa questão, a saber, para se evitar não ficar “deslocado” (de quê?), mente-se sobre a leitura de algumas obras.

Essa mentira é totalmente desnecessária. A franqueza, a honestidade, a verdade é o que deve regular a postura de todo e qualquer leitor. Não tem nada de errado em admitir que nunca leu “Dom Quixote”, de Cervantes, por exemplo. E note-se que com os grandes clássicos a mentira é facilmente construída, dada a notoriedade que essas histórias possuem.

Vejamos alguns exemplos: “Os Miseráveis”, de Victor Hugo; “Dom Quixote”, de Cervantes; “Crime e Castigo”, de Dostoiésvski; “Guerra e Paz”, de Tolstói. São todos livros robustos, de peso, que figuram nas listas dos grandes clássicos da literatura. Mesmo os leitores que não leram tais livros, muitas vezes os conhecem “de nome”, quando não também sabem o conteúdo do livro, ou seja, a história que é contada em certas obras é de conhecimento amplo – mesmo para aqueles que nunca leram tais livros.

Eis um dos artifícios utilizados na mentira sobre a leitura de muitas obras: sendo as histórias notavelmente conhecidas, é dito que o livro foi lido mesmo não tendo sido.

Entendo que devemos nos pautar sempre pela franqueza. Todo diálogo flui melhor quando a honestidade se faz presente. Não há demérito algum em se ter uma lista grande de livros famosos que ainda não foram lidos. Todos temos. O problema é o engodo criado por alguns.

Vale ainda lembrar que a não leitura de alguma obra não impede necessariamente que uma conversa sobre o conteúdo seja estabelecida. A depender da obra, basta que o interlocutor seja franco, que mencione que sua fala está limitada pelo fato de conhecer o livro apenas de forma indireta, o que impossibilitaria apenas um debate mais profundo sobre o conteúdo – aí sim, apenas os leitores de fato é que possuem base para uma conversa do tipo.

A angústia da não leitura assola a todos nós. Por mais tempo que consigamos viver e por mais tempo que consigamos dedicar a leitura, o fato é que morremos deixando muitos livros que almejávamos ler sem que pudessem ter sido lidos. Ninguém escapa disso. Mas do que se pode escapar é da mentira, é do ludibrio, é do engodo desnecessário ao se dizer que obras foram lidas quando na realidade não foram. E se a vontade é tanta de se poder discutir com mais robustez sobre determinado livro, não é necessário mentir sobre a leitura, basta que a obra seja retirada da estante e a leitura seja posta em prática. O prazer será duplo: aquele proporcionado pela própria leitura, e aquele do debate literário honesto que será feito posteriormente sobre a história.

Continuemos sempre lendo, enfrentando e aproveitando os clássicos. Não tenhamos receio em dizer quais obras já foram de fato lidas e quais ainda constam na lista de leitura. O conhecimento (adquirido com a leitura de fato) total que abranja todos os clássicos é impossível. Portanto, deixemos as inverdades de lado e pratiquemos nossos diálogos sobre a literatura com honestidade. A franqueza sobre as leituras e as não leituras é uma questão de caráter. Na literatura, prezemos pela simples e despretensiosa verdade.

 

 


Fonte da imagem:

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Um comentário sobre “A necessária franqueza sobre as (não) leituras

  1. MEUS PAIS LIAM MUITO. MINHA MÃE TECIA COMENTÁRIOS SOBRE SUAS LEITURAS. ELA NÃO TINHA NENHUMA ESPECIALIZAÇÃO. MAS ATUALMENTE, O QUE MAIS ME CHOCA, SÃO OS COMENTÁRIOS AVILTANTES SOBRE “POLIANA E POLIANA MOÇA.” PIOR. ACHO QUE A ESSAS PESSOAS…LHES FALTAM MAIS LEITURAS. VOU LER OS OUTROS ARTIGOS, VOCÊS JOVENS SUSTENTAM O MUNDO, O VERDADEIRO. NÃO AO MUNDO DOS MESQUINHOS. EMPOBRECEM. SÃO OS QUE PÕE AS VELAS SOB OS VELADORES.

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