O breve período de vida dos textos da internet

Textos expiram? Artigos são vencidos pelo tempo? Escritos possuem um prazo de validade certo? Quando é que o esquecimento de algo publicado na internet entra em cena?

A reflexão proposta vale para qualquer “plataforma” em que um texto é inserido, mas foquemos aqui naqueles escritos que se situam na internet, tal como o presente.

O processo de produção de um escrito é, num nível genérico, basicamente o mesmo para todo aquele se propõe a produzir um texto. Seja qual for o tipo de escrito (tamanho, formato, tema…), há a necessidade de o produtor do texto raciocinar previamente sobre aquilo que registrará, escrevendo de maneira ordenada de modo a transmitir o conteúdo pretendido ao leitor. Para tanto, o raciocínio deve se fazer presente no texto de forma concatenada, lógica, coerente, a fim de que a mensagem transmitida possa ser devidamente absorvida pelo leitor.

Aqui entrariam as questões de estilo. Alguns textos costumam ser mais enxutos, enquanto outros mais longos. Alguns escritos são mais fáceis, enquanto outros são mais complexos. Enfim, vai depender sempre da proposta objetivada com o texto, sua finalidade, o lugar em que ficará registrado, o estilo de escrita do responsável pelo texto e demais fatores.

Até aí, tudo bem. Mas a partir do momento em que o texto está pronto e é publicado, até quando ele vale? Situemos a questão no âmbito da internet. Textos que são produzidos e publicados em blogs, sites, revistas digitais e afins. Em que momentos esses textos deixam de ser lidos?

Infelizmente, não há como fugir disso: vários (a maioria) textos da internet acabam caindo no ostracismo. Simplesmente desaparecem. Somem, como num passe de mágica. É assim e continuará sendo de tal modo.

Creio que exista um limbo da internet para onde vão vários desses textos. Não que esse fenômeno seja exclusivo da internet, pois basta imaginarmos a quantidade de livros, por exemplo, que foram escritos e com o tempo restaram esquecidos, tendo muitos desses deixado de existir. Mas é inegável que na internet esse tipo de ocorrência se dá num nível muito mais significativo.

A não ser que seja um texto que cause um impacto tremendo, o qual acabará sendo lembrado, citado e debatido de uma maneira única, o escrito cairá no ostracismo. E esse impacto deve ser profundo o suficiente para que permaneça vivo, pois impactante muitos textos são, porém, poucos sobrevivem ao fator tempo.

Lenio Streck descreve esse tipo de fenômeno como sendo um sintoma da “pós-modernidade”. Nas palavras do jurista:

Você escreve hoje uma matéria e posta em algum site […]. Ela fica na capa do site por algumas horas. Depois desaparece no buraco negro da internet. Some. Esfumaça. Fico imaginando uma espécie de purgatório de textos do dia anterior ao novo texto. Almas sofridas de textos lidos no dia anterior e que hoje já não valem, porque um montão de letrinhas encobriu as letrinhas do dia anterior. Pobres letras. Por isso, corra. Escreva seu texto e avise a todos para que leiam logo. Porque em instantes ele sumirá. Avise pelo facebook. Só hoje e amanhã seu texto ficará por aí.[1]

Não se foge disso. O próprio ambiente proporcionado pela internet leva a isso. Textos e mais textos que pululam diariamente. Os antigos dão espaço aos mais recentes. A novidade de hoje deixa de o ser amanhã. Com sorte, o texto fica na memória dos leitores. Muitas vezes até o próprio autor acaba por esquecer daquela sua criação de determinado momento. O texto se esvai. Some no limbo da internet.

De certa maneira, quando um texto novo é publicado, ele diz em seu íntimo: “Leia-me enquanto ainda pulso. Desfrute-me enquanto respiro. Observe-me enquanto aqui estou vivo”. Não que os textos morram. É justamente por negar a morte do texto que acredito que a maioria deles acaba indo para uma espécie de limbo. E, de uma maneira ou outra, esse limbo pode ser encontrado por qualquer pessoa, seja de maneira fortuita, seja de forma pretensiosa (com uma pesquisa no Google que acaba levando a um desses textos, por exemplo).

O fato é que, independentemente das circunstâncias determinantes, das razões que justifiquem, dos motivos existentes e dos fatores que interferem, esse fenômeno é observável. Textos nascem, respiram e “morrem”.

O autor possui algumas opções para lidar com essa possível angústia. Guardar os textos na memória pode ser bastante aprazível. Reunir escritos e lançar numa “plataforma física” pode ser uma forma de acalentar eventuais ânimos presentes, mantendo-se o texto vivo por mais tempo. Recordar mediante divulgações também é uma boa forma de trazer o texto novamente à vida. Republicar em outros lugares também é uma opção. Ignorar o fenômeno e aceitar que é assim que a coisa funciona, não havendo muito o que fazer, não deixa de ser um modo de enfrentar o problema. Isso e ainda mais – depende da forma com a qual o autor encara a situação.

Podemos então concluir dizendo que os textos da internet possuem prazo de validade? Vai depender da perspectiva de cada um – tanto na condição de autor, quanto na qualidade leitor. Apenas não se pode desconsiderar a existência do limbo. Ele não apenas existe, como também está repleto de textos da internet. Se isso é ou não um problema, dependerá de como a coisa é encarada.

De minha parte, espero apenas que esse texto tenha fôlego o suficiente para aguentar algumas respiradas, para que então possa descansar no limbo que o aguarda. E depois? O depois fica para depois. Por enquanto, aproveito esse breve período em que posso sentir o seu pulsar ainda vibrante.

 

 


[1] STRECK, LENIO. O que é verdade? Ou tudo é relativo? E o que dizer a quem perdeu um olho? Disponível em: http://www.conjur.com.br/2014-out-02/senso-incomum-verdade-tudo-relativo-dizer-quem-perdeu-olho ISSN 1809-2829. Acesso em: 03/05/2017

 


Fonte da imagem:

https://artrianon.files.wordpress.com/2017/05/7969d-p1020154_edited-1.jpg

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