O poder do ciúme em Dom Casmurro

Talvez em nenhum outro livro da nossa literatura o poder do narrador sobre o que está sendo dito fique tão evidente. Em Dom Casmurro, Machado de Assis demonstra toda a sua capacidade de prender o leitor com ideias, provas e contraprovas sobre um enredo que ainda hoje confunde o público.  É mais seguro admitirmos que Dom Casmurro se trate da história de um caso irreversível de ciúme em vez de comprarmos a sedutora ideia de que o romance retrata uma história de traição.

No primeiro capítulo, o narrador nos conta que o seu apelido, “Dom Casmurro” lhe foi dado em virtude de seu comportamento recluso e calado. O narrador explica que ganhou este apelido depois de cochilar enquanto ouvia os versos que um vizinho de bairro declamava para ele durante o curto trajeto do trem. O apelido logo foi conhecido e divulgado pelos vizinhos que também não concordavam com sua maneira calada e introspectiva. Em seguida, Bentinho, o narrador-protagonista do romance, revela que o apelido dado pelo “poeta do trem” servirá de título para o seu livro. No trecho seguinte encontramos um exemplo da ironia que é uma das marcas deste romance e que é uma das principais características de Machado de Assis.

“Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto. ” (Machado de Assis, 2008, p.7)

Além da famosa ironia de Machado citada anteriormente, neste trecho encontramos uma espécie de síntese do poder no narrador. Machado, através de Bentinho, nos sugere que é possível que o narrador extrapole os limites de seu relato, relegando ao autor, como neste caso, o papel de um mero instrumento que executa a tarefa de escrever. Quando Bentinho afirma que alguns livros só têm o título de seus autores e que há outros que nem isto possuem, ele nos diz que a verdadeira virtude consiste em saber como narrar, não importa quem esteja narrando assim como não importa o que está sendo narrado.

No segundo capítulo Bentinho revela os motivos pelos quais decidiu escrever este livro. Logo no primeiro parágrafo, ele nos conta que vive só, com apenas um criado, que a casa é própria, e que foi construída à maneira da antiga construção da Rua de Matacavalos, seu antigo endereço. Este desejo de reproduzir o mesmo ambiente que lhe serviu de moradia, anos antes já é uma pista de que o proprietário gostaria de recuperar algo que está em outro tempo, neste caso um passado já distante.

“Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua dos Matacavalos, dando-lhes o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e sala.” (Machado de Assis, 2008, p.8)

O trecho acima deixa bastante clara a intenção do protagonista em recriar a mesma residência em que vivera e com isto reviver um tempo que não é o presente. Podemos imaginar com isto que há algo no seu passado que ainda o perturba, algo que não ficou bem resolvido. O presente não lhe satisfaz, e é daí que surge a necessidade de uma fuga para o passado.

Outro aspecto que é bastante interessante de ser analisado neste capítulo são as figuras que enfeitam os quatro cantos do teto, com seus respectivos nomes: César, Augusto, Nero e Massinissa. O próprio Bentinho nos diz não saber o motivo pelo qual estas figuras faziam parte da decoração da casa de Matacavalos, uma explicação provável seria que naquela época era uma tendência utilizar elementos da cultura clássica como parte da decoração. Estas figuras, que já estavam presentes na casa da Rua de Matacavalos antes mesmo dela pertencer a Bentinho, talvez fossem mais do que simples adorno. Se pararmos para refletir sobre estes nomes, sobre estes soberanos, facilmente poderemos ligar a tirania e o poder absoluto que eles exerciam em vida à tirania do proprietário da casa, neste caso Bentinho. Mais uma vez, Machado de Assis associa a figura do narrador ao poder.

Nos próximos capítulos o ciúme de Bentinho é a base de todo o desenrolar da trama. Machado, usando de toda a sua habilidade consegue fazer de uma suspeita uma certeza para muitos e até hoje Dom casmurro é lembrada por muitos como A história de um adultério. No trecho a seguir veremos um exemplo de como o ciúme de Crescendo de maneira gradativa.

“Os braços merecem um período. Eram belos, e na primeira noite em que os levou nus a um baile, não crio que houvessem iguais na cidade (…) eram os mais belos da noite. A ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava mal com as outras pessoas, só para vê-los, por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. Já não foi assim no segundo baile; nesse quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir e que roçavam por eles mangas pretas, fiquei vexado, aborrecido. Ao terceiro baile não fui, e aqui tive o apoio de Escobar, a quem confiei candidamente os meus tédios, concordou logo comigo. ” (Machado de Assis, 2008, p.137)

Como verificamos no excerto acima, a beleza da esposa, representada pelos braços nus no baile em principio envaidecia Bentinho, em um segundo momento passou a perturbá-lo e o deixar inseguro. No terceiro baile esta insegurança foi tamanha que o impediu de comparecer na festa. Podemos ver que em pouco tempo, ainda no início do casamento, no momento do auge de felicidade conjugal, o ciúme do marido já estava prejudicando as relações sociais do casal. Escobar que ainda está sendo considerado um amigo e confidente do nosso narrador não foi poupado de sua desconfiança como iremos verificar mais adiante.

O casal Escobar e Sancha, que eram amigos tão próximos de Capitu que chegaram a batizar a primeira filha com o nome da madrinha, tiveram este gesto retribuído com o nascimento do primeiro filho de Bentinho e Capitu, um menino a quem chamaram Ezequiel, o prenome de Escobar. Por volta dos cinco anos, o menino já demonstrava certa habilidade em imitar os conhecidos, foi algumas vezes repreendido pelos pais, mas tinha a imitação por hábito. Bentinho afirma que o filho imitava o amigo Escobar com tanta perfeição que conseguia imitar até os seus olhos. Esta inocente brincadeira de criança também foi motivo de desconfiança para Bentinho, que passou a desconfiar de que Ezequiel fosse filho de Escobar.

O ápice da suspeita do marido enciumado foi na ocasião do enterro do amigo. Escobar que certa manhã ao nadar em um mar agitado afogou-se. Durante o enterro, Bentinho teve quase certeza do adultério, baseado em “provas” nada concretas. O trecho seguinte se refere a este momento:

“No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver, tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não lhe admira lhe saltassem algumas lagrimas poucas e caladas. (…) Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã. ” (Machado de Assis, 2008, p.157).

O trecho acima nos mostra claramente como o simples ato de olhar para alguém, mesmo que este alguém esteja morto, é o suficiente para despertar a desconfiança de quem está sugestionado pelo ciúme. Mesmo que Capitu não demonstrasse nenhuma ação, nenhum gesto que a comprometesse, os olhos dela faziam que Bentinho suspeitasse da esposa e do amigo. Quando Bentinho compara o olhar da esposa ao da viúva, nos leva a pensar que havia algo em comum a estas duas mulheres. Estarão as duas sofrendo por amor pelo mesmo homem? A comparação entre os olhares de ambas é algo muito eficaz, é possível visualizar a cena, é muito fácil suspeitar de alguém em uma situação como esta, apesar de ser uma situação em que não há nada de suspeito. É uma evidencia nada objetiva. É uma visão bastante subjetiva e que foi facilmente adotada por muitos leitores durante muito tempo. O adultério em Dom casmurro foi uma certeza praticamente até o ano de 1960, quando Helen Caldwell publicou o livro O Otelo brasileiro de Machado de Assis. Em seu estudo que se tornou um importante instrumento na compreensão desta obra, Helen desmistificou o adultério de Capitu e Escobar. O trecho seguinte foi extraído do livro de Helen e fala justamente da temática do ciúme, uma constante da obra Machadiana:

“O ciúme nunca deixou de fascinar Machado de Assis. Em suas obras, seja em artigos ou na ficção, ele frequentemente faz pausas para manipular um lento bisturi sobre uma nova manifestação de ciúme. (…). É ele mesmo quem revela que se trata da história de Otelo, mas com certa diferença, sua Desdêmona é culpada. “ (Helen Caldwell, P. 18; 21)

No excerto acima, retirado do livro de Helen Caldwell, temos a chave para compreender que esta história não se trata de uma história sobre o adultério, mas sim de uma história em que o ciúme ganha tanta importância que se transforma no protagonista da obra. Podemos dizer que Bentinho personifica o ciúme e toda a sua vida foi afetada por este sentimento. Machado de Assis, usando toda a sua genialidade, conseguiu criar um enigma que levou mais de um século para ser desvendado e seu narrador foi a peça principal para que isto fosse possível.

Referências:

ASSIS, M. Dom Casmurro- 2ª ed.-São Paulo: Ciranda Cultural, 2008.

CALDWELL, H. O Otelo brasileiro de Machado de Assis– Ateliê Editorial, São Paulo, 2002.

Referência de imagem:

https://www.tumblr.com/search/olhos%20de%20capitu

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s