OBRAS INQUIETAS 31. “O último homem” (1849), John Martin

Quando colocou a derradeira pedra sobre o túmulo da sua mulher, o último homem da Humanidade ergue a cabeça e sente o silêncio como se fosse uma presença física. O silêncio das pedras, o silêncio das cinzas que infestavam o ar com a sua lembrança de morte e de isolamento. Nenhum som sai das sombras das árvores que não mais estavam ali; nenhum suspiro escapa das ruínas das cidades mortas. Só o silêncio: a ausência das risadas que não existem mais, o sumiço do vento que antes trazia os sons da vida distante, o silêncio e somente ele. No firmamento, o sol, que por tantos milhares de anos fora uma fonte de luz e de alegria, solta seus últimos estertores gelados. Ele brilha sangue. Na terra, o solo esfarelento ainda recorda da vida que outrora se arrastava por suas entranhas. O último homem do planeta olha ao redor, e não encontra nenhum conforto ou lampejo de esperança. Não resta mais nada, somente a solidão. Não restaram filhos, amigos ou inimigos; a sua vida é um longo arrastar-se por essa eternidade que se estende até a morte e chamam de vida. Sempre cobiçou a solidão e, agora que se tornou o último homem da Terra, só consegue sentir-se enlouquecer ao ouvir as batidas estrondosas do próprio coração, ou o silvo que o ar faz ao sair dos seus pulmões. Ninguém nunca lhe disse que carregaria consigo o fardo de ser o último homem que pisaria sobre esse planeta moribundo, mas tudo o que consegue pensar é que não queria se sentir tão sozinho, tão desesperadamente sozinho, envolvido pelo silêncio e pela memória. Sobreviver é o maior dos castigos para quem não tem mais alegria ou esperança.

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