OBRA DE ARTE DA SEMANA: O Escriba Sentado do Museu do Louvre

O Escriba Sentado, calcário, 53,7 cm de altura, 4a ou 5a dinastia, 2600 – 2350 a. C. Conservado no Museu do Louvre, Paris, França.

O Escriba sentado foi encontrado pelo arqueólogo Auguste Mariette no sítio arqueológico de Sacará, em 1850. Devido a impossibilidade de publicar seus diários de escavações em vida, existem muitas lacunas a respeito da estátua do escriba que impressiona pela sua vivacidade, mesmo quase quatro mil anos após sua criação. Justamente a data, é um dado incerto. Segundo os historiadores, baseando-se em características estilísticas, a obra teria sido criada durante a IV ou V dinastia, entre 2600 – 2350 a. C. Como não se sabe exatamente em qual local do sítio arqueológico a peça foi encontrada e também não há inscrição que conste o nome do personagem e seus títulos – algo raríssimo nas esculturas egípcias – é difícil detalhar com exatidão a data ou a identidade do personagem. Provavelmente, uma inscrição existia em uma base de pedra maior, que deveria ficar sob a base que vemos atualmente. Uma particularidade de O escriba sentado é a maneira na qual o escultor decidiu representado o pé direito da figura de frente, mostrando apenas três dedos.

O que mais impressiona é o excelente estado de conservação da peça, talhada em calcário fino, que conserva sua policromia original – realçada por uma limpeza de 1998 – e o detalhe dos olhos e a particularidade da fisionomia, muito realistas.

Quanto à vivacidade de seu olhar, esta é possível graças à elaborada técnica usada em sua execução. O criador da peça – a nós desconhecido, mas que provavelmente era um dos melhores artistas de seu tempo – usou um bloco de magnesita branco com veias vermelhas que reproduz de maneira bastante fiel as pequenas veias do globo ocular humano, no qual foi incrustado um cristal de rocha com a parte posterior polida, criando uma impressão de vitrado, como vemos nos olhos verdadeiros. Atrás da íris, existe uma camada de matéria orgânica que dá cor a este elemento e, possivelmente, o fixa à magnesita. Após estudos radiográficos, foi possível aos curadores concluir que o todo é preso ao calcário através de garras de cobre soldadas.

O fato de a estátua ser tão elaborada atesta a importância da figura do escriba na sociedade egípcia. Tanto na administração real, quanto na administração de uma grande propriedade ou na religião, tudo era anotado e organizado por esses funcionários que podiam ser muito importantes e próximos ao faraó. Inclusive, a palavra escriba, em egípcio « sech » também era um título de funcionário.

A imagem do escriba foi representada desde as primeiras dinastias, sendo que as estátuas, especificamente, apareceram um pouco posteriormente, durante a 4a dinastia. Inicialmente, elas mostravam membros da família real, que nessa dinastia faziam parte da alta administração e do clero. Entretanto, de maneira geral, a maioria das esculturas de escribas os representa lendo ao invés de escrevendo, como no escriba do Louvre.

Também é o caso de outra peça bastante próxima a esta encontrada durante a mesma escavação, a Estátua de Péhernefer, tanto pelo fato de escrever quanto pela maneira realista na qual é representado o personagem. Ambas mostram um homem representado fielmente segundo sua imagem – diferente de muitas estátuas estilizadas egípcias – que seguravam um pincel, hoje desaparecido. Os escribas usavam pincéis de junco para aplicar a tinta preta compunha a escrita corriqueira e a vermelha que destacava os detalhes importantes sobre o papiro, material caro que poderia ser lavado e reutilizado.

A estátua provavelmente foi criada para ser colocada em um mastaba – túmulo reservados aos faraós das primeiras dinastias, pelos membros da família real ou altos dignitários no período do Alto Império, que ficavam próximos à pirâmide do faraó nos dois últimos casos – mais especificamente na capela de culto acessível aos padres funerários. Assim, com seus nomes e títulos inscritos sob a pedra em sua base, o morto poderia ser lembrado e « alimentado » no outro mundo, através das oferendas que recebia em sua estátua. Para os egípcios, não ter seu nobre lembrado por ninguém é o mesmo que não mais existir, e, segundo sua crença, se o defunto não fosse devidamente « alimentado » poderia morrer de fome, como acontecia neste mundo.

Bibliografia :

Luca BACHECHI, Emanuele CASTELLANI, Francesca CURTI, Les chefs-d’oeuvre du Musée du Louvre, Paris, Place des Victoires, 2009, p. 34-35.

Sophie LABBÉ-TOUTÉE, Christiane ZIEGLER, « Le scribe accroupi » in Musée du Louvre. Consultado em 30 de maio de 2017. http://www.louvre.fr/oeuvre-notices/le-scribe-accroupi

« Le scribe accroupi à la loupe » in Musée du Louvre. Consultado em 30 de maio de 2017. http://musee.louvre.fr/oal/scribe/indexFR.html

« Les outils d’écriture par ordre d’apparition » in BNF. Consultado em 31 de maio de 2017. http://classes.bnf.fr/dossisup/outils/indexo.htm

 

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