A melhor maneira de descrever uma história

“A melhor maneira de descrever uma história é contando a história. Entende? Alguém que descreve uma história, seja para si ou para o mundo, conta a história. É um ato de equilíbrio, e é um sonho. Quanto mais preciso o mapa, mais ele se parece com o terreno. O mapa mais preciso possível seria o próprio terreno – e, portanto, perfeitamente preciso e perfeitamente inútil. A história é o mapa que é o terreno. Você precisa se lembrar disso.”

Como se conta uma história? De que modo se constrói uma narrativa? Qual a melhor maneira de se narrar um episódio? Há uma forma correta de se relatar um ocorrido?

A citação que inicia esse texto foi extraída do livro “Deuses Americanos”, de Neil Gaiman, sendo uma perspectiva interessante a ali constante e que contribui para o presente diálogo.

A descrição de uma história, seja ela ficcional ou não, deve ser feita de maneira suficiente para que o conteúdo pretendido seja transmitido e absorvido por aquele a que se direciona. O autor de um texto pode ou deve ter em mente o seu pretenso leitor a fim de que se leve em conta tudo aquilo que merece ser observado durante a elaboração da escrita para que a finalidade seja alcançada. Isso é tão correto quanto óbvio. Mas o que tudo isso significa?

Sempre digo que não acredito em fórmulas prontas, o que não significa, de um modo geral, que inexistam critérios a serem observados e respeitados. Penso que com a escrita é a mesma coisa. Há regras mínimas que devem ser levadas em conta (coesão, sintaxe, pontuação…), como aquelas, uníssonas entre os escritores, que Stephen King explica em seu excelente “Sobre a Escrita”: “se você quer ser escritor, existem duas coisas a fazer, acima de todas as outras: ler muito e escrever muito. Que eu saiba, não há como fugir dessas duas coisas, não há atalho”. Mas há também toda uma liberdade que é conferida ao narrador. Há formas e formas. Algumas melhores, outras piores, mas poucas erradas.

O estilo é algo que se desenvolve, mas não que necessariamente se cria – pelo menos não de uma maneira consciente. Cada narrador possui sua própria forma de contar. É através da elaboração das narrativas que a coisa toda se aperfeiçoa e se desenvolve. Outros textos e autores podem gerar influência no modo que o narrador constrói a sua forma de descrever uma história. Na realidade, essa influência é certa. Seja como for o modo pelo qual esse fenômeno pode ser percebido, os reflexos de grandes autores ou daqueles mais lidos ou mais apreciados pelo narrador se farão presentes em seus relatos. Esse é justamente um dos aspectos que contribui para a construção do estilo próprio. E essa construção, como já disse, é sempre inconsciente, pois, ao meu ver, elaborar um estilo pretensiosamente, de forma deliberada e com consciência, é algo que se torna artificial demais, o que acaba gerando um efeito nocivo àquelas histórias que são contadas por esse método. Isso pode ser percebido em algumas profissões que se utilizam da escrita de maneira costumeira. Sendo advogado, muitas vezes não consigo ou sequer posso fugir de determinados formalismos. Mesmo que possa se dizer que isso seria necessário em determinados contextos, num aspecto geral, da escrita como um todo, acaba sendo algo que aprisiona, enquanto na realidade a escrita deve ser o palco da liberdade.

Daí que a narrativa não deve encontrar amarras para além daquelas que a definem enquanto tal. Sendo coeso, compreensível, absorvível, enfim, agradável aos olhos do leitor, um texto não só pode como também deve romper com aquelas limitações meramente aparentes. Saramago seria Saramago se se atentasse para o considerável tamanho de seus parágrafos? Nelson Rodrigues seria Nelson Rodrigues se optasse por poupar o leitor de seus relatos sórdidos, sujos e polêmicos?

Haruki Murakami explica como se dá o processo da expressão das ideias do narrador:

“Ao fazer um romance, os escritores geralmente convertem em narrativa o que existe no interior da sua consciência. O que existe na consciência e o que foi expresso são diferentes, e eles usam essa diferença como uma alavanca para criar o dinamismo da narrativa.”

Observem que a explanação de Murakami segue num sentido semelhante à citação que inicia esse escrito, ou seja, é preciso saber dosar a forma com a qual se constrói uma história. A narrativa é extremamente importante para que aquilo que se transmite venha a ser compreendido e convincente. Saber narrar é saber contar uma boa história. É por isso que se questiona qual seria a melhor maneira de se descrever uma história.

De minha parte, acredito que a resposta esteja em cada autor e autora, em cada escritor e escritora, em cada narrador e narradora, em cada contador e contadora de histórias. Cada qual ao seu modo, sustentando-se naquele chão mínimo que conduz uma linguagem fluida ou sólida, mas compreensível, digna de ser reconhecida enquanto uma história, enquanto um relato, enquanto uma descrição, enquanto um romance, enquanto poesia, enquanto literatura, as amarras devem ser desfeitas, os grilhões quebrantados e os limites superados. Afinal, a melhor maneira de descrever uma história é contando a história.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

GAIMAN, Neil. Deuses Americanos. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.

KING, Stephen. Sobre a Escrita. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

MURAKAMI, Haruki. Romancista Como Vocação. 1ª Ed. São Paulo: Alfaguara, 2017.


Fonte da imagem:

http://vilamamifera.com/maternidadepresente/wp-content/uploads/sites/50/2015/10/contar-hist%C3%B3rias.jpg

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