CARTA AO ARTISTA: Querida Dorothy

Querida Dorothy, como vai Kansas?

Desde que conheci sua história, me questionava o porquê desse seu desejo enorme em deixar Oz. Não conseguia compreender como algo tão bonito e rico de novas coisas surreais poderia ser pouco para fazer você bater os sapatinhos e proferir ao ar que não tinha lugar como a nossa casa.

Mas então comecei a ter ideias tão loucas quanto aquele pequeno povo que comemorou o seu acidental assassinato. Quer dizer, Oz pode parecer bem longe daqui, mas na verdade existe um mundo que podemos facilmente comparar a ele: a rede social.

Antes de começar a rir, preste bem atenção no que escreverei a seguir.

Para começar temos o momento que você acidentalmente caiu em cima de uma bruxa que era ruim para aquele povo. No momento que você caiu e a matou, o povo nem se quer te conhecia, mas pelo desespero que ali estava, começaram a te reverenciar, como um mito, e automaticamente buscaram em você e na violência, uma esperança para o medo que eles alimentavam.

Mas eu não paro por aí.

Conforme você foi seguindo os tijolos amarelos, você começou a conhecer seres fantásticos. Um homem espantalho que acreditava que não podia pensar, um homem lata que acreditava que não podia amar e um leão que tinha um coração enorme, mas se achava um covarde. Três seres fantásticos que não acreditavam em si pelo o que os outros diziam deles e não por eles realmente não terem aquilo que tanto desejavam.

Aí chega a Bruxa Má do Oeste e seus macaquinhos adestrados, que também podem ser facilmente chamados de trolls da internet, mais ou menos aqueles que vivem comentando atrocidades por aí. Ela representa aquele tipo de pessoa que cada vez mais vemos pela tal rede social, ela é aquela que fica querendo arrumar briga e tocar o terror em tudo e todos, mas quando alguém vai debater ou atacar, acaba derrotada por nada, como na sua aventura em que a bruxa é destruída por água.

Mas chegamos ao ponto mais importante: o único e “verdadeiro” Mágico de Oz. O mágico é a verdadeira e maior representação das pessoas e da própria utilidade da rede social. Veja bem: se firmou por uma imagem, mas no fim das contas é mais um homenzinho assustado que se esconde atrás de uma cortina, fingindo ser grande e assustador.

Por trás de toda essa mágica, brilho e falsa felicidade, Oz era uma grande terra de individualistas que beirava o narcisismo, cercada de falácias e pessoas desanimadas com si mesmas por se basearem em um ser, que no fim das contas, nem era real.

Perdoe-me por essas alucinações, querida Dorothy. Fiz toda essa linha de raciocínio para dizer que percebo hoje a valiosa escolha que você fez. Fugir daquele mundo cheio de seres irreais e viver mais próxima de pessoas de verdade. Para sua sorte, você pode escolher e fugir de lá, para o meu azar, fugir das redes sociais e de pessoas tão falsas quanto Oz é quase um desafio diário. Vai ver se deve ao fato de que infelizmente ainda não ganhei os meus sapatinhos para bater e dizer que não há lugar como nossa casa.

Um grande abraço e até a próxima epifania noturna.

De um louco qualquer.

Fonte de imagem: O mágico de Oz (1939)

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