Sobre porque O Diário de Anne Frank não é um livro deprimente

Sempre fugi do Diário de Anne Frank, apesar de gostar muito de ler. Mesmo o livro sendo muito conhecido, figurando na lista dos mais lidos dos últimos 50 anos, eu não sabia qual era exatamente seu conteúdo. Só sabia que havia sido escrito por uma garota judia durante a Segunda Guerra Mundial, e a partir dessa informação já criei em minha cabecinha o cenário extremamente depressivo e deprimente do campo de concentração. Não me entenda mal; conhecer o assunto e falar sobre as atrocidades cometidas é muito importante. Entretanto, eu simplesmente acreditava que não aguentaria ler tudo isso vindo das mãos e da mente de uma menininha presa; se tornaria real demais, a ponto de ser insuportável.

Mas, o conteúdo do livro não é esse. Acabei descobrindo um pouco de sua verdadeira história porque meu pai, que lê muito também, está numa fase de Segunda Guerra e comprou um monte de livros sobre o tema, inclusive O Diário de Anne Frank. Li vários deles e, como temos o hábito de discutir nossas leituras em comum e indicar outras, ele me contou um pouco sobre o livro em questão quando o estava lendo, além de alguns fatos que considerou curiosos ou dignos de nota. Foi aí que descobri que, na verdade, Anne não estava trancafiada em um campo de concentração quando escreveu aquelas palavras. Estava escondida com sua família e algumas outras pessoas, em condições relativamente confortáveis para a situação – eles passavam dias comendo, por exemplo, repolho, e algumas vezes alimentos já estragados, mas papel, livros, um rádio, camas quentinhas, banhos e até comemorações de aniversário faziam-se presente, diferente de outros clandestinos em situações bem mais precárias. A atmosfera era certamente tensa, sobretudo, com a passagem do tempo – a jovem escritora ficou escondida por quase dois anos – mas, mesmo assim, o leitor percebe momentos felizes e até mesmo otimistas. Inclusive, o relato começa pouco antes do período de clausura da família, quando Anne tinha 13 anos e é interessante notar como a adolescente vivia de maneira quase normal para sua idade, mesmo com as proibições e obrigações impostas aos judeus pelos nazistas. Interessante também é notar como ela evolui nesse período, passando a enxergar a realidade como ela é, de maneira mais adulta e menos fantasiosa, mudando, como é natural nessa fase da vida, e se tornando uma pessoa que propõe reflexões verdadeiramente relevantes sobre a vida de um modo geral.

Mesmo sabendo do destino da autora desde o começo – ela morre aos 15 anos em um campo de concentração, pouco antes da libertação dos Aliados e a sensação de “foi por tão pouco!” é inevitável – foi uma leitura gostosa, com personagens cativantes, daquelas que já deixa saudade quando estamos percebendo que as páginas lidas são mais numerosas do que as que viraremos até chegar ao final do livro. Só podemos imaginar o que essa adolescente dotada para a escrita, que sonhava ser uma escritora e, de fato, se tornou, se transformaria, e quais obras nos deixaria, se tivesse chego à idade adulta.

O livro serve de inspiração para enfrentar a vida com coragem, amá-la, apesar de tudo, e sempre ter esperança. Deve ser exatamente por isso que é tão famoso, não sendo somente mais uma leitura agradável. Afinal, se clandestinos judeus durante o Holocausto conseguiam ter bons e felizes momentos, por que nós, seres do Século XXI, sentados confortavelmente em suas poltronas lendo e escrevendo esse texto, não conseguiriam?

Para os que se interessaram em ler a narrativa ou já a leram, indico ainda um pequeno livro muito útil. Trata-se de Para além do Diário de Anne Frank, publicado pelo museu Casa de Anne Frank, em Amsterdã, que explica detalhes da vida no esconderijo e apresenta, brevemente, a biografia dos personagens – os escondidos e os que arriscaram suas vidas para ajudá-los – junto a imagens da época, fotografias, depoimentos e plantas do esconderijo.

Bibliografia:

Anne Frank, O Diário de Anne Frank – edição definitiva por Otto Frank e Mirjam Pressler, Rio de Janeiro, Record, 2017. 69ª edição.

Casa de Anne Frank, Para Além do Diário de Anne Frank: O dia a dia do esconderijo e de todos os seus habitantes, São Paulo, Leya, 2016.

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