“Negro Bonifácio”, de Simões Lopes Neto

A linguagem é um aspecto fundamental para a literatura. Através dela chegamos a estruturas mais profundas além do enredo, embora este também esteja condicionado por ela. Em Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto (SLN), nota-se uma constante aproximação entre o humano e o animal, tanto no seu aspecto físico (exemplo do negro e do touro) quanto de ethos (touro castrado vira um boi, e é isto que acontece ao final do conto, quando Bonifácio é castrado por Tudinha). E tudo isto é feito através de estratagemas narrativos apoiados à linguagem escolhida.

Somos até hoje, no Rio Grande do Sul, uma sociedade racista e machista (cometemos outras opressões, mas são estas que trabalharei em vias do conto). Logo, não é à toa que o narrador (Blau Nunes) utilize palavras tradicionais da gauchesca (cultura do pampa, do cavalo etc.) para designar, muitas vezes de maneira pejorativa, mulheres e negros. É o caso de nomes como muçum e piguancha, que são utilizados a fim de depreciar a imagem de Bonifácio e Tudinha, respectivamente, ao leitor.

O conto inteiro se passa em um evento tradicional da região, a Carreira (corrida de dois cavalos em linha reta). Há uma tensão após a chegada do negro Bonifácio ao local, que descobrimos depois ter pendências pessoais com várias pessoas do espaço e, em especial, com Tudinha. A corrida também pode ser entendida como uma metáfora ao “amor” da moça, já que o narrador nos conta que há quatro pretendentes no lugar, fora Bonifácio (que já se relacionou com ela).

A maneira com que foram escolhidos os nomes das personagens também é interessante de se comentar. Tudinha e Nadico formam um par com nomes antagônicos. O primeiro nos remete à palavra tudo, em oposição a nada, de Nadico. Tudo pode se referir à miscigenação da sua pele (pois sabemos que ela é morocha, ou seja, mestiça), e também à sua postura independente, ao passo que Nada é a completa apatia de Nadico (principalmente se tratando do manejo do cavalo – condição primordial da ética masculina gauchesca – em relação a Bonifácio). A oposição acontece também sob a ótica do machismo: o homem deveria ser o Tudinho e a mulher, Nadinha. A inversão se dá de novo e possivelmente com Bonifácio: não era uma pessoa boa, pela narração de Blau; mas era um exímio cavaleiro, o que talvez sustente a semântica do nome.

Uma das possíveis metáforas centrais do conto é vermos o Bonifácio como um touro ou vice-versa. Através da linguagem a metáfora é sustentada e percebe-se uma aproximação do nome touro a palavras do cotidiano das personagens, como taura ou taurear. A comparação também é possível porque o animal touro, em geral, tem os pelos negros. Outro componente importante para fechar a comparação, ao final, é que o narrador passa a chamar Bonifácio de boi. Boi é o touro castrado. Bonifácio é castrado por Tudinha ao final, como dito mais acima, assim fechando a metáfora, de touro a boi.

Os contos, de uma maneira geral, tem um tom de oralidade sempre presente. Simões Lopes Neto faz questão de nos transmitir esta cultura quando, primeiramente, coloca Blau Nunes para nos narrar os causos dessa terra. Este, por sua vez, utiliza recursos da tradição oral, seja pedindo atenção ao leitor dizendo “escuite!”, seja falando (está contando oralmente as histórias) e pelo vocabulário que usa, típico de conversas do ambiente da gauchesca. (Aliás, o escritor gaúcho foi o primeiro que equacionou o grande problema de dar voz aos de baixo e representa-la na escrita.)

Colocando um negro como protagonista (em Contos Gauchescos, “Negro Bonifácio” é o único em que isto acontece), SLN evoca um episódio racista e sangrento da História do Rio Grande do Sul: o massacre de Porongos (temos indicado no texto a alusão quando o narrador comenta sobre o lenço vermelho amarrado ao pescoço de Bonifácio). Ao final da Guerra dos Farrapos seria dado aos escravos que nela lutaram sua alforria. Como era de se esperar, os governantes não só não cumpriram com sua palavra como também massacraram os Lanceiros Negros (escravos que guerrearam) em Porongos. A figura de Bonifácio, morto ao final, pode fazer alusão a esse fatídico episódio de nossa História.

O certo é que Simões Lopes Neto nos dá um conto intenso, que transmite bem a cultura em seu tempo e espaço e que, também através da linguagem, nos mostra o quão opressores e violentos fomos e somos até hoje. Em um belo exercício de colocar o tom oral em livro escrito, temos aqui um monumento da literatura Rio-Grandense, na qual humano e animal, pela sua proximidade geográfica e cultural, passam a conviver às vezes no mesmo espaço: o de um personagem.

 

Referências:

NETO, J. Simões Lopes. Contos Gauchescos e Lendas do Sul. Porto alegre, RS: L&PM, 2012.

Referência da imagem: https://www.google.com.br/search?q=negro+bonifacio+conto&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjJq7KY2dfVAhXJ5iYKHXk7DpoQ_AUICigB&biw=1745&bih=819#imgrc=n_5AmfXTfNxXaM:

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