Game of Thrones, a arte do RPG e o Episódio 6×7

Como escritor, tenho a mania de achar que sei como uma história vai terminar. Às vezes, assisto a um episódio da novela, somente um dentre tantos, e me seguro para não revelar à minha esposa o que acontecerá no final. Assim como é chato abrir um livro e parar de lê-lo já cogitando como ele se desenvolverá. Lembro-me que a morte de Ned Stark, de cara, na primeira temporada, foi uma das maiores surpresas que já vivenciei. Desde então isso tem sido um problemão…

Para um veterano dos jogos de RPG de mesa, o cenário de GoT não é surpreendente e nem sequer original. Das referências mitológicas à influência de O Senhor dos Aneis, de As Brumas de Avalon a desenhos de cavaleiros de dragões dos anos 90, sequer consigo olhar para Daenerys sem me lembrar da elfa Deedlit de Record of Lodoss War. A ressurreição de Viseryon e o Rei da Noite, inclusive, possui uma versão bem mais heroica, épica e impactante na pele de Sindragosa e do Lich Rei, Arthas, no universo de World of Warcraft, que pode ser encontrado facilmente no Youtube desde 2008.

Na verdade, não há problemas com semelhanças. Minha eterna professora de português me esclareceu, quando decidi que atenderia ao chamado do processo criativo, que ela não se importa com a história do conto e sim com a forma daquilo que é contado. Estilo. Que, em GoT, se perdeu.

Nem as teorias e as descobertas dos fãs são tão relevantes, ainda mais por se tratar de uma série de episódios que se prolonga há quase uma década, não apenas despertando as infinitas possibilidades na mente dos leitores como ajudadas pelos livros embasadas por suas profecias que em algum momento haveriam mesmo de acontecer. O Azor Ahai, o Príncipe Prometido, dentro de outras tantas teorias, sendo impossível que qualquer fã, desesperado pelo intervalo de um ano entre as temporadas, não sofra de câimbras no dedo indicador de tanto clicar em sites teorizantes.

Os seus sites teorizantes… estão desde quando na barra de favoritos do seu navegador?

Alguém, em algum lugar, acertará inevitavelmente o ensejo da obra: é óbvio que nem todos os personagens vão morrer, é possível que o heroi se case com a heroína, é evidente que alguém importante será vencido para dar mais emoção à trama, é bem provável que… Que nem sempre o autor é um ser iluminado capaz de, ao longo de sete anos compartilhando suas ideias com o mundo todo, ser aquele que tenha em mente o desfecho mais mirabolante.

Pode até ser que, se fosse transmitido em episódios inéditos, em tempo real, muitos considerassem que o casamento de Arwen e Aragorn, no último livro de SdA, fosse trabalho de fanfic. Afinal, por que ele não ficou com Éowyn, a mulher guerreira? Arwen, a princesa dos elfos, poderia muito bem ter escolhido a eternidade no lugar do amor de Aragorn. Um enredo de filme francês, um desfecho de romance russo. Complexo, real, psicológico, triste. Éowyn acabou ficando com o sem graça do Faramir… Irmão de Boromir, aliás, interpretado nada mais, nada menos, do que pelo ator que interpretou o paradigmático Ned Stark. Como haveríamos de imaginar que, em sua segunda chance como protagonista de outra séria épica medievalesca, ele teria novamente um fim tão precoce assim… Embora, pensando bem, eu não saiba dizer com exatidão se a sua decapitação foi mais surpreendente por ele ser Ned Stark ou por ter sido o grande Boromir, comandante das tropas e filho do regente do reino de Gondor lá atrás.

Aprendi muitas coisas narrando jogos de RPG. Várias pessoas ao redor de uma mesa, encarando o narrador, desafiando-o, com dados de vinte lados nas mãos, com seus livros abertos e engatilhados, com suas fichas de regras a postos, esperando de você o melhor roteiro, a melhor descrição, um tratamento justo para todos os personagens, uma história original e ao mesmo tempo desprovida de incoerências e contradições. A expectativa deles, o julgamento preparado, a crítica na ponta da língua. O seu tempo de resposta, para as ações de 4, 5… 10 jogadores a lhe observar, de poucos ou nenhum segundo. Um descuido e, sem poder evitar, uma descrição errada e seu Jon Snow, sua Daenerys, seu Drogon  ou até o seu Rei da Noite, o arquivilão, personagem que você criou e preparou especialmente para aquela campanha, morre. Má sorte, 1 no dado. Erro crítico. Há de saber contornar a situação de uma forma não traumática… De uma forma igualmente crítica.

O mistério, o segredo, o calcanhar de Aquiles de qualquer artista: criar, agir, elaborar, modificar, seja o que for, de maneira que ninguém perceba a interferência da sua atuação. O seu posto de pseudo-divindade. Quando os jogadores (os adivinhas, os que ficam sem dormir planejando jogadas e ideias para a sessão da semana que vem, telefonando para a sua casa ou te acordando do cochilo da tarde e perguntando por spoilers) deixam de frustrar-se ou alegrar-se com suas próprias tentativas e passam a acusar o narrador.

Aqui, sim, existe um problema.

Então a culpa é do narrador, pois o narrador faz o que quer. Aquele corvo, aquele barco… de que modo viajaram tão rápido? De onde o Rei da Noite arranjou aquelas correntes gigantescas, no meio do nada, para puxar o corpo do Viseryon (e, além do mais, como o seu peso não quebrou a superfície do lago congelado)? Aquela cena, ridícula, sem pé nem cabeça, no final das contas aconteceu só para que o narrador conseguisse chegar ao fim que ele queria. Tipo a Daenerys indo na direção do escorpião de Qyburn, tolamente, mesmo sabendo que ele estava apontado para o peito do seu Drogon. Posteriormente, Jamie Lannister cai na água e ninguém vai atrás procurar. Vejam, é verdade: alguém narra; há um narrador aqui. Ele faz o que quer. Cadê a graça? É o fim.

O escritor, o roteirista, o criador, o improvisador, perde a sua capa da invisibilidade.

Não sei se a série está sendo inspirada em fanfics, mas Martin tem, agora, uma situação paradoxal com a qual lidar: sabendo, pela série de TV, o que deu certo e o que não foi popular, poderá ele ser influenciado no término dos livros, seja copiando, seja modificando? Um fanfic negativo, pelo avesso, omisso, invertido… De maneira que quem comprovará a sua intenção ou a sua real inspiração?

Eu não o uso, pois prefiro surpreender-me; mas há quem goste. Quem joga, conhece; quem não joga, que procure este artefato aí no Google do seu navegador. Chama-se “escudo do narrador”.

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