É possível separar a obra do artista?

Não é nenhuma novidade falarmos que temos um apego muito forte com a arte e todo mundo já teve ou vai ter um filme, música, livro ou até um (uma) artista preferido (a). Esse apego se deve ao fato de nos sentirmos inteiramente próximos ao que foi feito ou descrito ali, e por muito tempo temos aquela sensação de “isso foi feito para mim” ou “essa pessoa acabou de me descrever”.

A forma como levamos nossa obra preferida, muitas vezes nos leva a um autoconhecimento, construímos personalidade, dizemos quem somos para o mundo e até criamos uma segurança para nos socializarmos com grupos de gostos semelhantes.  Esse deslumbre nos cega e por muito tempo vivemos naquele universo dos sonhos, como se fosse uma primeira paixão. Mas como toda paixão, podemos encontrar pedras nesse caminho de tijolos amarelos.

Como devemos reagir quando descobrimos que a pessoa criadora da arte que nós amamos e que tanto nos ajudou a evoluir como ser humano, na realidade é um ser terrível, sujo, totalmente distante do que consideramos chamar de ética e moral, criando uma cratera enorme entre as nossas e as opiniões do tal?

Em resumo: O que fazer quando descobrimos que o artista que você idolatra, na verdade é um grande babaca?

É claro que é muito fácil entendermos que no mundo existem diversas opiniões diferentes e temos que aprender a lidar com elas, de forma pacífica e sempre estimular um bom diálogo. Porém, sabemos que opinião é muito diferente de racismo, machismo, violência verbal ou até, um extremismo em seu posicionamento político. E se você estiver lidando com um artista atual não existe nem a desculpa de diferença de época e pior, com as redes sociais essa exposição aumenta e as chances de você se decepcionar são dobradas.

Essa descoberta provavelmente vai lhe render uma dor tão forte quanto levar um tropeção na rua e cair de cara no chão. A princípio você vai se sentir perdido, afinal, a pessoa que criou aquela coisa maravilhosa, que fez você descobrir um mundo novo e novas pessoas, na verdade é um mostro que ofende tudo que você acredita. É confuso e se assemelha muito como perder uma paixão.

A segunda fase de tudo isso é a raiva e o distanciamento de você e de tudo que lhe remeta a tal coisa. Se for uma música, você acaba pulando, se for um filme, você até tira da lista da Netflix, se for um livro, ele fica por último e se for um quadro, você começa a pesquisar outros artistas, tomando cuidado para não cair no mesmo precipício. Mas, a verdade, é que esse distanciamento não é bem o caminho adequado. Então voltamos a aquela pergunta: é possível distanciar a obra do artista?

Me pego escrevendo algo muito pessoal. Em determinado momento da minha vida, um dos artistas que mais admirei e que fez parte da minha adolescência, deu uma entrevista falando que era besteira “choramingar” por algumas “unhas” arrancadas na época da ditadura, minimizando as dores de milhares de vítimas. Aquela noticia me causou tanto impacto que foi realmente uma dor de um fim de relacionamento, rasguei as fotos, neguei ser verdade por algum tempo, me desfiz de tudo que me lembrava à pessoa e comecei a buscar outros artistas, me encantar por novas coisas, para assim, me afastar. Mas certo dia, o Youtube foi passando algumas músicas e acabou caindo no som do tal artista, ao escutar, me peguei, mais uma vez, negando o encantamento que aquela música me causava, mas me odiando por dentro por gostar da uma música de idiota. Como pode alguém tão terrível criar algo tão lindo?

Ora. Apesar de parecer algo muito particular, pelo processo criativo geralmente se iniciar por um indivíduo, a arte na verdade é algo totalmente coletivo.  A maioria das obras artísticas nada seriam se fossem analisadas e sentidas apenas por um ser. O conjunto de sentimentos e ideias que elas causam de forma diferente para cada um é o que realmente a faz crescer e aparecer. De onde surge a ideia é outro ponto que podemos questionar para chegarmos a uma resposta, já que geralmente elas vêm de um subconsciente surgido de memórias e experiências sociais.

Não há porque tirar o mérito de quem produziu algo (mesmo que se trate de um idiota), mas também é claro que uma obra ou uma invenção não seria nada sem o coletivo, afinal, o que seria da roda se ninguém quisesse se locomover? Uma coisa é se afastar do que o autor produzir do momento em diante que você descobriu quem ele era, outra é tentar bloquear sentimentos que muitas vezes são impossíveis de esconder.

Para concluir, é necessário ressaltar que mesmo criando um vínculo afetivo diante da obra do autor, não devemos de forma alguma protegê-lo. Pelo contrário, é preciso julgar e dizer o que está errado, para assim evoluirmos. Mas também, a maior arma que podemos usar quando essas confusões matutarem pela nossa mente é ter noção que mesmo uma pessoa ruim pode criar algo bom, tirar a melhor parte dela e jogar no mundo e com todas as coisas ruins que sobram, podemos entender o motivo de haver tanta coisa incômoda em um só ser. É como as pessoas. Existem filhos ótimos com pais péssimos, pois quando nasceu, ele conseguiu estabelecer um vínculo com a sociedade e soube se separar desse cordão umbilical. Mas caso isso ainda te incomode muito, procure por outros artistas que trabalhem com características semelhantes. O que não falta no mundo é arte.

“O artista é mentiroso, mas a arte é verdade!” – François Mauriac

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