OBRAS INQUIETAS 43. “Mulher chorando” (1947), Cândido Portinari

No silêncio da imagem, um olho mal consegue esconder o espanto, a incredulidade, a dor. As mãos desajeitadas, disformes depois de tantos anos de maus-tratos e de serem usadas até os limites das suas forças, amparam o rosto como se nunca tivessem tocado a pele que envelhece mais rápido do que o tempo. Ela não é uma mulher acostumada a acariciar e, no gesto paralisado, existe algo de mecânico, de desconforto. Do olho fechado, o silêncio dolorido cede diante do peso da sua existência e brota na forma de uma lágrima impregnada de desespero. Ela não é bonita, e sequer sabe se vestir com a elegância irreal que a sociedade exige. A mulher não se preocupa com ser, e sim com o que é, e, nesse momento, ela está preenchida pela dor, que se espalha no mundo através do olho ainda cheio de surpresa, pelo outro semicerrado que permitiu a fuga da lágrima traiçoeira. Ninguém sabe o motivo pelo qual a mulher ali jaz em silenciosa contemplação. Ninguém conhece o seu nome, ou qual o peso que angustia a sua consciência. Ainda assim, reconhecemos nela o incômodo reflexo das vezes em que choramos sozinhos no escuro, das ocasiões em que nos sentimos sufocar no meio do cotidiano, dos momentos em que perdemos o controle. Não perguntes por quem a mulher chora, pois ela pranteia todos nós.

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