Rita Lee: Uma autobiografia

Acabei sendo fã da Rita Lee por tabela. Minha mãe a adorava desde adolescente. Talvez representasse a liberdade que ela sempre quis e nunca, de fato, conseguiu aplicar em sua vida de artista-escritora que teve que se diplomar dentista. E, ironicamente, acabou não indo a nenhum show da cantora. Uma morreu, a outra está aposentada. O que está feito, está feito, diriam as demoiselles de Macbeth.

Enquanto eu lia a autobiografia da Ritinha – como era chamada por alguns personagens do meio, por exemplo, pela Hebe – minha mente ia compondo uma playlist com meus sucessos favoritos da roqueira: “Ovelha Negra”, “Erva Venenosa”, “Lança Perfume”, “Amor e Sexo”, “Tudo Vira Bosta”, entre outras pérolas. Acho suas letras um barato, assim como sua personalidade efusiva. Aliás, roqueira não é um adjetivo aplicado de maneira engessada à avó do rock brasileiro, já que ela já passou por vários outros estilos, aqui e ali: bossa nova, MPB, tendo gravado até com o Gilberto Gil.

Primeiramente, e é impossível não colocar esse detalhe, trata-se de uma autobiografia de verdade, na qual o autobiografado a escreveu realmente, sem recurso a um ghost writer – esse serzinho que escreve como se fosse outro, tentando colocar o estilo alheio no texto – que, por mais competente que seja não é a pessoa e ponto.

Lemos o livro eu e meu pai – a parte sobre as férias na casa da avó dela em Rio Claro, cidade onde eu e a maior parte da minha family nascemos no interior de São Paulo, foi especialmente interessante. Durante a leitura, descobri várias coisas legais que não sabia sobre a figura. Ela é defensora ferrenha dos animais e tem mais “filhos” em casa do que eu – e eu tenho oito. Ela também escreve, além de autobiografias, livros para crianças e também pinta. Ela defende o direito das mulheres e escreveu letras sobre a sexualidade e o prazer feminino em uma época que desquitadas eram mal vistas pelo resto da sociedade. O pai dela era um fofo, nada parecido com aquele de “Ovelha Negra” que manda a filha assumir sua esquisitice e sumir. Também foi curioso perceber como era o clima da ditadura, tão comentada pelos meus pais, mas que, na minha cabecinha, censurava só arte política, e não qualquer coisa que não encaixasse naquele triangulo tedioso do tradição-família-propriedade. E se você é daqueles que ama uma história de amor para a vida inteira e ficou com as esperanças abaladas com o fim dos casais Bernardes-Bonner e Jolie-Pitt, pode se recuperar com o par Rita e Roberto.

Através de histórias curtas – já que ela diz possuir uma memória fragmentada, talvez devido ao estilo de vida sexo, drogas e rock’n roll, com ênfase na segunda – a cantora conta momentos marcantes de sua vida e fala sobre a criação de suas músicas. Notem que ela tem uma quantidade absurda de discos gravados e músicas, das quais grande parte ela mesma compôs – artista de talento é outra coisa. São tantas que maioria eu nem conhecia!

Bem escrito, gostoso de ler, divertido e sem papas na língua.

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