CARTA AO ARTISTA: Querido eu

Caro artista futuro, como vou?

Prestes a fazer aniversário, me peguei refletindo sobre qual artista eu escreveria a minha carta para resolver as dúvidas e pendências que a minha mente criou. Mas, com tantas fragilidades e questões internas (mesmo que atinja um nível muito grande de egocentrismo), porque não me chamar de artista e mandar a carta para um futuro eu? Veja, aniversário faz essas coisas. Mesmo não sendo um fã desse tipo de comemoração, é sempre um momento de reflexão e aproveito o espaço para perguntar ao futuro eu artista: quem sou eu no seu eu agora?

Eu escrevo poesias, mas não sei se sou poeta. Eu escrevo textos, mas não sei se sou escritor. Eu escrevo filmes, mas não sei se sou roteirista.Eu escrevo músicas, mas não sei se sou compositor.Eu filmo, edito, mas não sei se sou cineasta. Eu não sei o que sou nesse momento, na verdade, sei mais o que não sou do que sei o que sou. Será que logo existo ou desisto?  Você que sou eu, ai no futuro, deve estar rindo ou pensando: “eu lembro como é se sentir assim. Nós melhoramos, Pedro”

Ora, se pense assim, que cale a boca!

Um bom artista se consome e produz das dúvidas e inseguranças que lhe rodeiam. Nunca vi um artista que chegasse em casa, no seu momento mais solitário e ainda tivesse o seu ego como escudo, assim como se mostra na rua. Eu sou você, não se esqueça, a raiz ainda é a mesma.

Mas calma, não vim aqui para ofender o futuro eu, apesar de já fazer isso todo dia com o presente eu.

Existe uma linha muito frágil segurando a loucura diária que eu passo. Eu não me sinto certo de nada, mas continuo fazendo. É por isso que me chamo de artista, eu não sei como eu vou ganhar dinheiro ou reconhecimento (vale o pessoal também) nessa bagunça estranha que eu vivo, mas sinto uma força tão grande, que não dá para pensar em outro modo de sacrifício se não a arte. É por você que eu me movo lentamente e cuidadosamente, mas ao mesmo tempo sedento, como uma peça de xadrez perto de declamar XEQUE. Por isso lembre-se sempre de quem está aqui sofrendo.

Mas claro, eu espero que você ainda esteja sofrendo muito, até porque, me livre de um futuro sem sonhos e sem medos, universo. Viver é viver sempre explosivo, que assim seja sempre.

Quando aceitei a ideia de mandar uma carta para mim mesmo em um futuro um tanto distante, pensei: “mas o que eu vou perguntar?”. Apesar de ter muitas perguntas, quero apenas saber: as pessoas já descobriram que somos uma farsa revestida de escolhas certas de meia dúzia de palavras? Espero que não, esse é o nosso maior segredo. Acreditamos tanto na mentira que uma hora ela se constrói.

Não é porque eu sou um pouco egocêntrico, mas desejo que tenhamos conseguido o mundo e que também tenhamos conseguido esvaziar todas aquelas ideias e amores mirabolantes que viviam nos atacando como azia. Essas mordidas doem demais, mas parece que pari-las dói mais ainda. Qual escolher?

Volta e meia me perguntam como eu me vejo no futuro. Muito trêmulo respondo que com muito medo, mas que tenho uma ótima forma de apaziguar esse medo e construir um bom futuro: imaginar que um presente eu manda cartas e mensagens diariamente para o futuro eu, como post-its, para que esse eu, lá de longe, leia e pense: conseguimos.

Conseguimos?

Um abraço do presente que virou passado no seu  presente.

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