As histórias que residem nas cartinhas que o Papai Noel recebe

Fico imaginando o quanto Papai Noel deve se divertir com o teor das cartinhas que recebe. “Querido Papai Noel, esse ano eu me comportei bem. Gostaria de ganhar uma bicicleta. Eu ficaria muito feliz. Obrigado!”. O cerne dos pedidos, com suas justificativas que dão ensejo ao merecimento do presente, provavelmente gira em torno disso. Claro que são várias as cartas, o que leva a existirem cartinhas mais elaboradas, mais concisas, mais fundamentadas, mais ousadas, mais humildes, e por aí vai.

De que modo Papai Noel lê essas tantas cartas que recebe? Vejam, a dúvida aparentemente simples, se pensada a fundo, gera diversas nuances, de modo que para cada questionamento, outros desse surgem.

Papai Noel se importa mais com a forma ou com o conteúdo? Isso faz toda a diferença. No caso de se preocupar mais com as formalidades da escrita da criança pedinte, a narrativa construída e presente nas cartas certamente seria um fator determinante para o convencimento do bom velhinho. Aquelas cartas mais bem elaboradas poderiam inclusive ser guardadas pela figura natalina a fim de serem lidas durante todo o ano. Formariam um tipo de literatura apreciada pelo Papai Noel, já que, a depender da criatividade da criança, excelentes histórias estariam estampadas em muitas das cartinhas.

Ainda sobre a preferência da formalidade, será que Papai Noel deixaria de atender pedidos feitos em cartas escritas com erros ortográficos? Convenhamos que seria muita maldade do senhorzinho, principalmente ao considerar que ele está lidando com crianças. Aliás, será que somente crianças enviam cartinhas para o Papai Noel? O que impede, nós, adultos, de escrevemos para o velhinho? Será que deixamos de arriscar pela descrença na existência de sua figura, ou por julgarmos pouco crível que ele atenderia nossos pedidos provavelmente mais custosos?

Agora, e se for com o conteúdo que Papai Noel dê mais importância? Ainda assim ficaríamos em dúvidas, pois o que poderia ser considerado como aceitável para o velhinho? Dizer que houve bom comportamento durante o ano e, portanto, o presente pedido seria merecido, poderia ser considerado como atendida a exigência do Papai Noel para que o presente fosse enviado? Para explicar melhor os motivos do merecimento, a criança não teria de relatar bem a sua história, ensejando na necessidade de se criar uma narrativa coerente, de modo que o aspecto da formalidade também acabaria se fazendo presente? Ou bastaria omitir as traquinagens, relatando de maneira singela que houve bom comportamento, que Papai Noel já se daria por satisfeito e atenderia ao pedido?

Percebo que também há um certo tipo de mal-estar presente na maioria dos relatos que estão nas cartinhas. É mentira (ou ingenuidade) dizer que criança não mente. Também é forçoso dizer que as crianças se comportam como pretensos anjinhos durante todo o ano. Crianças aprontam. Crianças mentem. Crianças têm um lado perverso. Lembro aqui de Roddy Doyle, escritor irlandês que retrata muito bem esse lado pouco falado da infância em “Paddy Clarke Ha Ha Ha”. Paddy, o protagonista da história, é uma criança de dez anos que narra as suas peripécias do dia a dia. O mundo é contado sob o seu ponto de vista. O modo de ver as coisas por uma criança é mote do livro. Os relatos são um deleite para o leitor ao considerar as lembranças da infância que o livro acaba trazendo à tona. São narradas histórias de crianças brincando e se divertindo jogando bola na rua, bem como histórias de grupinhos de amigos que se unem contra um único colega e o obrigam a engolir coisas. Vemos também o irmão mais velho que num momento está protegendo o mais novo, enquanto em outro está o esmurrando sem motivo algum. Disso é feito a infância. Momentos memoráveis. E exemplos concretos e tangíveis desses momentos estão repletos nesse livro. Não se mostra apenas um lado, o bonitinho, mas também aquele sobre o qual ninguém gosta de comentar. Pode ser que muito daquilo que aprontamos enquanto crianças tenha sido feito na inocência. Ninguém quer de fato quebrar o vidro da janela do vizinho enquanto joga bola. A não ser que seja aquele vizinho chato, resmungão, que só berra com a criançada. Aí a coisa é diferente. Se não houver alguma criança com coragem ou petulância suficiente para se vingar por conta do vizinho, a satisfação de ver a vidraça se quebrando será compartilhada por todo o grupinho de amigos mesmo em caso de acidente. É molecagem, sim, mas mesmo na molecagem tivemos tanto os nossos atos infames que eram acobertados pela inocência infantil, ou seja, que não eram praticados por maldade, como também as nossas práticas que eram realizadas pelo puro prazer de causar o caos. Sim. Todos tivemos um lado perverso na nossa infância – mesmo que em situações isoladas. Por mais anjinhos, bem-comportados e educados que fôssemos, o fato é que escondíamos um lado sombrio. Às vezes os confidentes dos nossos atos maldosos eram os colegas mais próximos, às vezes, os irmãos, às vezes, apenas nós mesmos, guardando todas as travessuras, desde as mais leves até as mais pesadas, no fundo do nosso íntimo. Os pais ou os professores jamais. Esses não. Muito menos o Papai Noel.

Voltando ao mal-estar, e considerando as travessuras inerentes da infância, vejo-o presente quando da seguinte indagação: é mais arriscado contar tudo nas cartinhas e torcer pelo perdão do Papai Noel (ansiando também por um crédito pela honestidade), ou omitir informações, desvirtuar fatos e mentir deliberadamente no pedido pelo presente? Dizer que se comportou bem durante o ano pode ser apenas uma meia verdade, já que suprimidos do relato estariam os episódios de traquinagens da criança. Mas talvez essa seja a aposta mais certa. E se assim a criança fizer, isso já contaria como a primeira malcriação que deveria ser confessada ou omitida da cartinha do próximo ano? O mais correto talvez então fosse contar tudo, os momentos bons e ruins, os comportamentos adequados e os inadequados, torcendo para que o julgamento do Papai Noel funcionasse como uma espécie de balança, e que o peso das boas ações superasse o das ruins. Assim, o atendimento do pedido poderia ser realizado com o envio do presente pretendido. Mas será que, nesse caso, estabelecer o Papai Noel como fosse um padre, forçando a criança a confessar todos as suas atitudes desviantes, não acabaria tirando a mágica da coisa toda?

Fico com as minhas curiosidades sobre as cartinhas que o Papai Noel recebe. O mais interessante devem ser as histórias que nelas residem. Quantos casos, quantos relatos, quantas situações não devem existir nessas cartas? Histórias engraçadas, histórias tristes, histórias de suspense, enfim, histórias de todos os tipos – suficientes para agradar todos os gostos, inclusive os mais críticos.

Essas e várias outras dúvidas que mantenho só podem ser respondidas pelo Papai Noel. Como não me arrisco a enviar uma carta perguntando essas coisas para ele, seja pelos motivos que enquanto adulto aqui expus, seja por saber que ele estará ocupado demais para me responder (ora por estar atendendo aos pedidos que lhe são feitos, ora por estar lendo as histórias que residem nas diversas cartinhas que recebe), permaneço assim, curioso com essas tantas histórias que poderiam compor um gênero literário próprio.

Espero que, por algum tipo de acaso, esse meu relato possa um dia ser lido pelo Papai Noel como fosse uma carta, e que ele se compadeça da minha situação, atendendo então ao meu simples pedido!


Fonte da imagem:

https://abrilbebe.files.wordpress.com/2016/11/crianca-escrevendo-carta-para-papai-noel.jpg?quality=85&strip=info&w=1000&h=666&crop=1

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Um comentário sobre “As histórias que residem nas cartinhas que o Papai Noel recebe

  1. No seu artigo, você passa para o Papai Noel, muito da nossa cultura, do nosso país de clima tropical. Penso que o ser humano desde que nasce, já começa a ser corrigido em todo o seu cerne: deve ser bom, mas refutar o mal. A escola também faz essa avaliação quantitativa. “Somos bons” merecemos o melhor. Tenho a certeza que Papai Noel, ouve muito bem, a criança que existe em nós. Sabe o quanto os meninos são estudiosos e curiosos. Muito fofo o que escreveste. Essa cultura veio até nós de regiões de clima temperado da Europa. As crianças perambulavam desnudas e famintas pelas florestas álgidas de um continente de neve, enquanto nas cabanas seus país, muitas vezes, jaziam doentes ou mortos. Triste. Eu adoro Papai Noel. Meus pais festejavam as festas natalinas, e a do Coelhinho também. Eram eles os bons velhinhos e o Coelhinho. Tenho certeza que o Papai Noel, já começou a lhe enviar lindos presentes: a sua família, O Victor Hugo….que presentão!!!

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