“Um Conto de Natal” é mais do que uma história de natal

Charles Dickens é um autor inglês que é conhecido pelo seu estilo caracterizado por uma forte crítica social, em conjunto com um otimismo na humanidade que, para os desacostumados, pode parecer um pouco exagerado. As obras mais conhecidas do escritor são David Copperfield e Oliver Twist. Ambas ganharam diversas adaptações cinematográficas. Somente a primeira teve filmes em 1935, 1969, 1993 e 2000. Já Oliver Twist também ganhou muitas versões para as telas, sendo a mais conhecida o filme de 2005, dirigido pelo aclamado Roman Polanski. É preciso lembrar também que o sucesso de Dickens atingiu e influenciou vários escritores, dentre eles o nosso Machado de Assis que, além de leitor, traduziu várias obras para o português.

“Um Conto de Natal” (ou “A Christmas Carol”, em inglês) foi publicado em 1843. A história foi feita por Dickens com o objetivo de pagar algumas dívidas. Entretanto, o sucesso na época foi tão grande que a produção se tornou um clássico de natal, permanecendo assim até hoje. Recentemente, em 2009, o conto recebeu uma adaptação cinematográfica, em animação digital, estrelado pelo comediante Jim Carrey. Outra famosa referência ao conto está no especial de natal da série Doctor Who, exibido em dezembro de 2010, com o título “A Christmas Carol”.

Na história, temos o rico e nada simpático Scrooge. Ele é um velho que dedicou sua vida aos seus negócios e não se preocupa nem um pouco com as pessoas. O narrador, em sua melhor definição sobre o personagem, diz que “o frio e o calor tinham pouca influência sobre Scrooge. Calor algum podia aquecê-lo e nem o vento do inverno esfriá-lo”. Em uma conversa, Scrooge define para seus ouvintes o que é o natal:

“O que é o natal para você, senão a época de não ter dinheiro para pagar sequer suas contas? A época de se dar conta de que está um ano mais velho e nem uma hora mais rico; o momento para fazer um balanço nos livros de contabilidade e ver que cada item, nestes doze últimos meses, só lhe trouxe prejuízo? Por mim – continuou Strooge, indignado –, cada idiota que saísse por aí desejando feliz natal deveria ser fervido, misturado junto com seu bolo de natal e enterrado com um galho de pinheirinho no coração, isso sim!”

As coisas começam a mudar quando o velho insensível recebe em sua casa a visita do fantasma de seu antigo sócio, Marley. O morto diz que sua vida foi perdida nos seus negócios e que agora ele vaga pelo mundo sem destino. E diz ao assustado Scrooge que três fantasmas vão visitá-lo. O primeiro deles é o fantasma do passado, em seguida o fantasma do presente e, por fim, o fantasma do futuro. Cada um deles tem como intenção mostrar como as atitudes de Scrooge atingem aos que estão próximos deles.

O fantasma do passado mostra sua conturbada relação com a família e o seu isolamento desde a infância. Pode-se dizer que uma das principais características de Dickens é humanizar seus personagens. Neste momento entendemos toda a angústia de Scrooge e o vemos se emocionar e chorar pela primeira vez na história. Em seguida, o fantasma do presente leva Scrooge para dar uma volta pela cidade e ver o “espírito natalino” em vários lugares. Ao visitar a família de seu funcionário, a quem o velho tratava muito mal e fazia constantes ameaças de demissão, o fantasma do presente deu-lhe uma bela lição: em um momento de desespero, Scrooge diz que todos ali vão morrer por sua causa. O fantasma então questiona, “você acha que vai decidir quem deve viver e quem deve morrer?” E ainda acrescenta, “É possível que você mereça menos viver do que milhões de seres iguais ao filho desse pobre homem. Santo Deus! é insuportável ter que ouvir o inseto na folha decidir que há vida demais entre seus irmãos esfomeados sobre o pó!”

Por fim, o fantasma do futuro, sem dizer uma só palavra, conduz o velho por toda a cidade e mostra as reações das pessoas com a morte de alguém. Mas muitas das reações não são de compaixão. Muitas são de alívio, outras de oportunismo e isso tudo deixa Scrooge com pena dessa pobre alma. Mais tarde, o outrora frio e antipático personagem descobre que quem havia morrido ali era ele mesmo e que tudo que ele havia feito ou deixado de fazer, trouxe-lhe um fim solitário e sem importância para ninguém. O nosso protagonista então acorda em sua casa e, ao saber que ainda era natal, se propõe a corrigir todos os erros. Esse foi o primeiro natal de muitos que Scrooge passou a amar. O antes velho, pão duro, frio e que odiava o natal havia se tornado uma pessoa que desejava um “feliz natal” até aos desconhecidos.

Como eu havia dito no início do texto, Dickens, apesar de ser um “realista”, traz consigo um enorme otimismo em suas obras. Muitas vezes toda essa transformação de suas personagens e essa ideia de um mundo com pessoas melhores pode parecer irritante. Por outro lado, a crítica social do escritor é certeira. Scrooge pode ser lido como a personificação do capitalista, anti-humanista e que seu maior prazer é ver as pessoas implorando por empregos e com jornadas de trabalho desumanas e ainda recebendo misérias. Em uma data tão importante economicamente para praticamente todos os países de tradição cristã, essa relação entre a festa natalina e o comércio é mais do que necessária. De maneira sutil, Dickens dá o seu recado.

Em uma outra via, o autor inglês também lança algumas questões filosóficas. Ainda que nitidamente religioso e, portanto, uma vítima do discurso de culpa dos cristãos, Dickens alivia o peso de seu personagem sobre suas atitudes. Ora, suas atitudes podem influenciar sim aos que vivem junto de ti, mas você não será nunca o responsável pelo fim deles. É como disse o fantasma, como um ser tão insignificante pode decidir o destino de outro? Não seria prepotência? Essa reflexão não tira ainda o sentimento de culpa, mas o equilibra, o que já é um grande passo.

“Um Conto de Natal” é uma bela história, excessivamente otimista, sem deixar de lado a crítica ao mundo e a si. Trata-se de uma obra que deveria ser lida no natal e também em várias outras épocas do ano, a escolher.

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