OBRA DE ARTE DA SEMANA: Alegoria com Vênus e Cupido, de Bronzino


Agnolo Bronzino, Alegoria com Vênus e Cupido, óleo sobre madeira, 146,1 x 116,2 cm, c. 1545. Conservada na National Gallery, Londres, Inglaterra.

O primeiro plano desta pintura alegórica é ostensivamente dominado por uma mulher nua de pele muito clara. Trata-se de Vênus, deusa greco-romana do amor e da beleza, identificável graças ao seu diadema, aqui ricamente decorado, à maça dourada que ela segura em sua mão esquerda, à colomba embaixo do pé direito de Cupido, e finalmente a este último representado ao seu lado, ele mesmo reconhecível por suas asas e pela flecha que sua mãe tira de seu alforje verde, também ricamente decorado e quase não visível ao espectador, desarmando-o. A maça dourada é uma referência ao episódio no qual Éris, a deusa da discórdia, não é convidada para o casamento de Peleu e Tétis, mas comparece mesmo assim ao evento e joga uma maça de ouro do jardim das Hespérides aos pés de três deusas, Hera/Juno, Atena/Minerva e Afrodite/Vênus, entoando a frase “Para a mais bela”. Para decidir qual das três seria verdadeiramente a mais bela, chama-se Páris, príncipe de Esparta, o qual escolhe Vênus como vitoriosa, que por sua lhe dá como recompensa a mulher mais bela no mundo, Helena de Tróia, marcando assim o início da Guerra de Tróia e a continuação da competição entre as deusas que ajudam os lados opostos.

Voltando à nossa querida obra, com seus personagens principais devidamente identificados, pode ser chocante ao espectador o beijo incestuoso que acontece entre a deusa e seu filho. Inclusive, durante a era vitoriana, a língua de Vênus que aparece sob sua boca entreaberta e seu mamilo entre os dedos de Cupido foram apagados devido ao seu caráter erótico, sendo restaurados ao seu original somente em 1958.

Identificando as outras figuras presentes na composição é possível entender que, na verdade, trata-se de uma alegoria do amor impuro. Primeiramente, temos, quase tão bem iluminado quanto às duas figuras principais, o garotinho nu à direita da composição que está prestes a jogar pétalas de rosas sobre o casal. Ele personifica a Tolice, o Prazer ou a Brincadeira, entretanto, apesar de sua aparente alegria, há sob seu pé um ferrão, representando a dor do amor, a qual ele nem mesmo se dá conta existir. Atrás dele, vemos a imagem do Prazer que estende um favo de mel ao casal, mas que sob os traços de uma garotinha inocente esconde patas animalescas – uma pata de leão? – no lugar de suas pernas e uma cauda escamosa com um ferrão. Na parte de cima, vemos um velho alado com uma ampulheta nas costas, clara personificação do Tempo, Tempo este que acaba com toda beleza e põe fim a vida humana e aos amores. Ele puxa a cortina azul, revelando assim a máscara vazia no alto à esquerda, que alude à Fraude. Também temos no chão, no canto inferior direito da composição, aos pés de Vênus, outras duas máscaras, uma feminina, mais clara, e outra masculina, mais escura, grosseira e com barba, que acredito que representem a fraude do jogo do amor e prazer. Finalmente, sob a máscara no alto e ao lado e Cupido, temos uma figura desesperada, que urra com as mãos na cabeça, sendo identificada como o Ciúmes ou a Sífilis. Note que até mesmo a carnação da personagem possui tom diferente das outras, sendo mais amarelada e de aparência doente. Sua identificação como personificação da Sífilis se deve ao fato de que a doença era bastante recorrente na época, e talvez tenha sido até uma brincadeira de Cosmo de Médici, duque de Florença e comanditário da obra, com Francisco I da França, presenteado com a pintura, pois os italianos chamavam a sífilis de “mal italiano”, enquanto que os franceses a chamavam de “mal francês”. O fato de a obra ter sido encomendada por um humanista para outro, contribui para seu caráter complexo e erudito, entendível por um público de cortesões cultos. A corte de Francisco I era, inclusive, um importante foyer maneirista que contava até mesmo com alguns artistas italianos.

Ainda é interessante perceber o detalhe de Vênus desarmando Cupido, que acredito que seja uma alusão à vulnerabilidade trazida pelo amor e pela paixão. O rosto do menino parece angelical, puro e muito mais absorto no beijo, enquanto que a boca aberta de Vênus e sua língua, além do detalhe da flecha e sua posição natural de poder por sua maior idade e por ser a mãe do menino colocam-na também em uma posição de poder e controle no jogo amoroso.

Quanto à composição, esta se encaixa bem no período ao qual pertence, o maneirismo, no qual a perfeição e equilíbrio na alta renascença foram substituídas por desequilíbrio e certa artificialidade elegante, além de poses teatrais e exageros presentes nas obras de Rafael e Michelangelo. Na pintura deste último, já estava presente o contraste de cores e algumas cores vibrantes e não naturais, tendência ainda mais forte no período maneirista, além de uma anatomia exagerada, com corpos muito musculosos, mesmo o das mulheres. No maneirismo várias obras possuíam distorção anatômica tendendo ao estiramento – pensemos na Madona com pescoço longo de Parmigiano –, aqui presente em um sutil alongamento do corpo de Cupido, que parece se esforçar para se abaixar e beijar Vênus, e à torção na postura de ambos.

A teatralidade da cena se dá graças à cortina do fundo, a sobreposição das figuras em um espaço limitado, quase que achatado, e sem indícios de arquitetura e decoração, à parte a almofada cor de rosa sobre a qual Cupido apoia seu joelho esquerdo, e à iluminação forte que parece vir de uma fonte de luz à frente dos  personagens principais.

A pintura foi descrita por Giorgio Vasari, pintor e biógrafo de diversos artistas, entre eles Bronzino, em seu livro “Vida de Bronzino”, de 1568.

Bibliografia:

História ilustrada da arte: os principais movimentos e as obras mais importantes, São Paulo, Publifolha, 2016. p. 132-141.
Compre esse livro aqui.

“An Allegory with Venus and Cupid” in The National Gallery. Consultado em 19/12/2017.
https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/bronzino-an-allegory-with-venus-and-cupid

Fonte da imagem:

es.wikipedia.org/wiki/Alegor%C3%ADa_del_triunfo_de_Venus#/media/File:Angelo_Bronzino_-_Venus,_Cupid,_Folly_and_Time_-_National_Gallery,_London.jpg

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