Lacunas: Considerações sobre “A Música Nunca Parou” de Jim Kohlberg

Tenho a oportunidade de escrever estas ideias ao som de Mr. Tambourine Man, de Dylan. A escolha não foi ocasional. Há uma chuva intermitente lá fora, e, por conseguinte, aqui dentro também. Essa brincadeira poética de chuvas fora e dentro nos indicam alguns momentos da prosa que iremos começar agora. Falaremos acerca do filme “A Música Nunca Parou”, do diretor Jim Kohlberg.

Poderia ser um filme sobre os efeitos musicais do Woodstock. Poderia também ser um filme entre pais e filhos. Poderia ser uma ode a Dylan, Beatles e outros. Poderia ser mais um conflito de eras no qual  uma vence e caminha para seu fim, sempre levando o pedaço da outra que deixou. Poderia. Contudo, estamos a falar de amor e tempo.

Gabriel (Lou Taylor Pucci) é um jovem encantado pela música e não consegue se conectar aos seus pais – eras diferentes. Olhares também, ideais que se chocam.  Situação peculiar a grande parte dos adolescentes. Assim, poderia ser o enredo de “A música nunca parou”: O adolescente sai de casa, cortando aquela relação tensa com os pais.  No entanto, depois de alguns bons anos, os pais recebem uma ligação que informava que o filho estava internado com um tumor no cérebro. Tumor que iria afetar a racionalidade e a memória do jovem impedindo-o de se relacionar com seus pais. Parece que esse corte é o que nos irá guiar nessa prosa. E seguindo um dizer nietzschiano, segundo o qual “sem música a vida seria um erro”, já anunciamos nosso a caminho.

O pai, Henry Sawyer (J.K. Simmons), que de há muito já não se relacionava com o filho, a partir da cirurgia procura resgatar esse contato a todo custo, mas o tumor impede a memória do jovem, e as ligações pessoais tornam-se quase impossíveis. Quase impossíveis. Exatamente pelo que dizíamos acima. O erro da vida é ser concebida sem música. Sem o som e sem a poesia, tons que pintam o impossível na razão.

Assim, o pai contrata uma musicoterapeuta que constata que a partir dos sons que o jovem ouvia, ocorria um reativamento de suas funções neuronais a partir do tempo em que ele havia vivenciado aquelas canções. E é nesse sentido que dissemos da relação do filme com o amor e o tempo. Pois, o tempo, esse que nos constrói, destrói, caçoa e amolda nossa existência, não se determina propriamente pelo relógio, e isso restaria claro nesse filme.

Quando Gabriel Sawyer escuta os sons que embalavam sua existência na juventude, reavivava seu existir mesmo, tornando a sentir aquilo que se perdera com o tumor. É ai que seu pai, em um gesto de amor, percebe que deveria deixar para trás o preconceito que o havia distanciado do filho e se lança ao imaginário dele. O filósofo franco-lituano Levinas perceberia nesse gesto uma afirmação de sua teoria que diz a ética ser a filosofia primeira, aquela que inaugura o existir a partir da alteridade.  Assim, o pai preconceituoso em relação às canções libertárias e revoltadas de outrora, torna-se um ser humano mais pleno de poesia e, portanto, de vida, quando se permite ao outro, e se deixa ir pela  imensidão das músicas criadas na estrada do filho.

Daí em diante o que se vê é exatamente essa disposição para o outro que inaugura no mundo nossa existência mesma. Pelo ouvido do filho, um pai rancoroso descobre o tempo do amor. E isso nos remete ao poema “Quero” de Drummond:

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais…

A remissão ao poema é uma forma de caminharmos para o local que anunciamos: o do  amor, pois, se apenas quando ouvia as músicas Gabriel conseguia se conectar ao mundo, seu pai não hesita em se transportar para essa dimensão. Dessa maneira, Percebe-se a urgência do amor, a urgência e a necessidade do tempo do amor, que assim como  a música, quando não cantada encerra esquecida. Portanto,  a música nunca parou para que vivesse Gabriel, que de sua lacuna racional inaugurou  um amor incondicional em seu pai,  que desde então, a cada disco tocado, nunca mais cessou em dizer: eu te amo…te amo…te amo…

Fonte da imagem:

http://cinemascope.com.br/criticas/a-musica-nunca-parou/

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