Os problemas da tradução e por que ler no idioma original?

Quando não se fala a língua na qual o texto que se pretende ler foi escrito, obviamente não se impõe a questão – e, é claro que por mais que se fale vários idiomas, é impossível saber todos os que existem. O mesmo vale para quando não se encontra a versão original – o que é cada vez menos frequente graças à compra de livros pela internet e e-books. Aliás, você sabia que livros importados não são taxados quando chegam ao Brasil?

Quando, então, ler no original? Quando se fala a língua ou pelo menos se consegue entender o que se está lendo. Se houver dificuldade para ler uma língua estrangeira, a leitura claramente se torna mais lenta, e é compreensível que o leitor prefira a tradução se houver pressa ou necessidade de compreender acuradamente o conteúdo do texto, por exemplo, no caso de pesquisa. Mas, é extremamente interessante usar a leitura como ferramenta para aperfeiçoar um idioma. No início é bastante difícil, demorado e frustrante – o sei por experiência própria -, porém, após algum tempo, a leitura começa a fluir, mesmo que não se saiba cada uma das palavras escritas no papel, e acaba-se por “aprender por osmose”, que confesso ser minha maneira favorita de aprender idiomas, pois é o mesmo que aprender como uma criancinha nativa.

Não estou aqui de maneira nenhuma desmerecendo a tradução, afinal, eu, como todo mundo, leio muitas obras traduzidas, e, além disso, eu mesmo traduzo de tempos em tempos. E é exatamente por isso que conheço bem os dilemas de um tradutor quando confrontado a uma palavra que possuí, por exemplo, diversas possibilidades de tradução. Uma escolha tem de ser feita, e nessa escolha, temos o dedo do tradutor, de sua formação, de sua habilidade linguística, de seu conhecimento da obra do autor que está traduzindo, de sua compreensão – muitas vezes subjetiva – do texto. Certa vez, quando eu traduzia jogos para uma empresa francesa, ou seja, do francês para o português, havia um trocadilho ligado a uma foto, que o jogador tinha de adivinhar através de dicas, trocadilho esse que não faz o mínimo sentido em português, tanto pela expressão não existir, quanto pela sua carga cultural não estar presente em nossa mente brasileira. Nesses casos, eu deveria simplesmente inventar um novo jogo de palavras ou frase que funcionasse para a imagem. Não havia possibilidade de nota do tradutor no rodapé. Também, a título de curiosidade, uma amiga meio sueca, meio francesa, que é intérprete, me contou que em conferências em que há necessidade de tradução simultânea – aquelas nas quais a pessoa que discursa é escutada através de um fone de ouvido com a tradução sendo feita na hora -, se o locutor fizer uma piada que não é entendível na outra língua sem uma longa explicação, o intérprete simplesmente diz “Piada intraduzível. Riam, por favor.” E é claro que a audiência ri muito.

Algumas vezes, o problema da tradução de livros reside no tempo, pois, geralmente, o editor compra os direitos de uma obra por um determinado período e esse tempo começa a contar a partir da assinatura do contrato. Ou seja, a produção do livro, a diagramação, o design gráfico, as ilustrações e as traduções têm que ser feitas o mais rápido possível para que a obra fique rapidamente disponível para venda e o editor não perca dinheiro. Assim, o tradutor tem um prazo apertado e não tem todo tempo do mundo para refletir profundamente e fazer suas escolhas. Ainda, se o autor for vivo e contatável, o tradutor pode ao menos consulta-lo sobre possíveis dúvidas. No caso de best-sellers altamente esperados pelos leitores do mundo todo, um grupo de pessoas faz o trabalho, dirigido por um tradutor chefe que cuida para que a tradução seja coesa, e assim consegue-se traduzir mais rapidamente.

Há ainda o problema da tradução feita a partir de um idioma que não é aquele no qual a obra foi escrita originalmente, o que acontece no caso de línguas ditas raras, por exemplo, as nórdicas e africanas, que muitas vezes são traduzidas para o português a partir de uma versão em inglês. Nesse caso, as duas traduções contribuem para que haja mais erros, más interpretações, ou simplesmente a influência de dois tradutores, distanciando-se assim cada vez mais do texto original. É claro que a maior parte das pessoas – e aqui me incluo nessa -, não lê sueco ou iorubá e precisa de uma versão traduzida. O que podemos fazer é verificar onde há a ficha catalográfica, que fica geralmente logo nas primeiras páginas, antes do início do texto, se a tradução foi feita a partir do idioma original ou de outro idioma.

Felizmente, hoje existem cada vez mais traduções de qualidade dos mais diversos idiomas, entretanto, nem sempre é assim. O leitor deve, sempre que for viável, se atentar a escolher volumes de editoras sérias e, se possível, traduções bem indicadas.

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