Olhares femininos nos longas ‘Sonata de outono’ e ‘Saraband’ de Bergman

Escrever sobre filmes de Bergman é sempre uma chance imensa de se revelar a si mesmo enquanto as letras cobrem a página de preto. Com essa sabedoria e sem nenhum pudor lançarei letras sobre dois filmes de uma vez: Sonata de outono, de 1978 e Saraband, de 2003, este último fora a também a última obra do diretor.

Por que utilizar dois filmes? A resposta é apenas uma obra do ocaso que nos leva pela cidade. Assisti um filme em um dia e outro no outro. Essa é a explicação. Em Sonata há uma relação muito complicada entre a filha, Eva (Liv Ullmann), que recebe sua mãe, Charlotte (Ingrid Bergman), – uma famosa musicista – em sua casa simples na qual vive com o marido, pastor, e a irmã que vive na cama com problemas mentais e uma espécie de paralisia no corpo que a impede a locomoção e uma fala legível.

Saraband é outro drama que narra à história de uma ex-esposa, Marianne (Liv Ullmann), que resolve visitar o ex-marido Johan (Erland Josephson) e nessa aventura envolve-se nas relações familiares conturbadas em que vive o ex: o filho do ex-marido tem uma filha belíssima que também é uma excelente musicista, a qual recebe uma proposta para viajar e ir cuidar de sua carreira. Essa decisão importaria em abandonar o velho pai que perdera há pouco a esposa e que nutria uma espécie de obsessão pela filha.

Basicamente as cartas estão à mesa. Mas, de fato, não estão. O cinema ali, apesar da crueza com que desentranha as relações humanas e nos atira na cara nossas próprias mazelas, deixa sempre o rastro do que foi vivido e olhares femininos inquietantes a nos inquirir: o olhar de Liv Ullman e Ingrid Bergman.

Enquanto em Sonata, Ingrid interpreta uma mãe com problemas relativos à alteridade, em Saraband, Ullmann é quem narra a história acompanhando com seu olhar a vida do ex-marido – visitando-o para visitar-se a si. E mesmo envolvida no turbilhão da vida do seu ex-marido, é ela quem retorna para suas fotos, para candidamente rir e chorar da tragédia de sua existência que tem a visão horizontal de tudo. Essa percepção pode ser recolhida na cena em que a personagem debruça seu olhar, ao início e ao fim do filme, pelas fotos de todos os outros personagens de sua vida.

Nesse caminho, os dramas dialogam ao estarem relacionados com canções, uma sonata no outono que traz as mazelas de uma mãe que oprime a filha, que não a vê. Esse olhar que não vê faz nascer uma filha perversa. Isso é evidenciado quando ao reencontrar a mãe, faz sobre ela recair, com sua vida comezinha, suas roupas comezinhas e sua existência comezinha, o peso de uma vida negada por viver à margem, como sombra de uma mãe nunca presente mesmo que ao lado. O filme questiona a ideia das amarras psicológicas a que nos envolvemos, e uma pergunta da filha é fundamental: “É possível não ser mãe e filha?” É o problema da nossa existência racionalizada que se estriba sempre em duplos para desenhar a realidade, e nessa estrutura do pensar, um lado sempre queda menos favorecido. A existência individualizada e narcísica de Charlotte é tão luminosa que impede que sua filha consiga caminhar com suas próprias pernas. Tornando-se sombra que rasteja. Quase Ismênia em relação à sua irmã Antígona.

E dialogam mais os filmes quando em Saraband, Ullmann pode observar o drama de fora. Ela chega, observa, vive e não o drama do ex-marido e se vai. Não volta. Não se envolve. Ri e chora. Ela observa! Essa seria a reflexão que gostaria de propor: dois filmes distantes em tempo, mas dois filmes vistos sob o olhar feminino: materno, profissional – há uma musicista e uma advogada – e o mais interessante, um olhar humano do feminino, que quebra um estereótipo da mãe que se doa à existência dos filhos. O outro não existe e a morte espiritual da filha é o sucesso da mãe, tragicamente, sem peias e remorsos.

As mulheres dominam a cena enquanto os homens claudicam pela vida Há uma advogada que observa a decadência da existência do ex-marido. Há uma filha que resolve cuidar de sua carreira e um pai que tenta o suicídio. Há uma musicista que caçoa do marido morto. Estaria Bergman se declarando para Ullmann em um outono e em forma de canção?


 

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