O Labirinto do Fauno: Uma fuga da guerra para a fantasia

Lançado no ano de 2006, sob a direção de Guillermo Del Toro, O Labirinto do Fauno (El Laberinto Del Fauno), tornou-se um dos marcos da fábula fantasiosa no cinema. Detentor de uma fotografia sombria, com cenários rodeados de florestas assombradas e misteriosas, vastos efeitos especiais, O Labirinto do Fauno, é nada mais do que um conto de fadas à moda antiga, assim como aqueles dos irmãos Grimm, onde as atrocidades cometidas por homens são contadas de uma forma fabulosa e fantasiosa.

O filme se inicia com um breve relato de uma lenda, onde uma pequena princesa resolveu abandonar seu reino subterrâneo, na curiosidade de vivenciar o mundo humano. Por conseguinte, temos Ophelia, uma pequena de 10 anos completamente maravilhada pelo mundo literário e dos contos de fada, e sua mãe grávida, viajando ao encontro de seu padrasto, Vidal, em um acampamento militar, sendo ele um dos mais importantes capitães do Governo Espanhol. De imediato nota-se a frieza, o sadismo, a soberba e arrogância da devida personagem, e um ríspido desdenho a respeito de seu interesse acerca da literatura.

Ophelia acaba conhecendo, aos redores da casa onde passou a habitar, um labirinto, que a leva para um mundo subterrâneo. Lá, ela conhece o Fauno, que se traduz em uma personagem meio homem, meio bode, com cascos e chifres, uma típica criatura oriunda da mitologia. Então, é informada que, na realidade, aquela princesa que havia fugido de seu reino era ela mesma, tendo o Fauno como missão levá-la de volta para seu verdadeiro lar.
Entretanto, para que sua volta fosse possível, Ophelia teria de realizar três tarefas designadas pelo Fauno, contando com o auxílio de objetos mágicos, um livro mágico capaz de mostrar passado e futuro, e a ajuda das fadas. Assim, Ophelia passou a realizar as tarefas que lhe foram subordinadas. Curioso o fato, de que no mesmo instante em que suas tarefas eram concluídas, o conflito entre os militares e os rebeldes republicanos tornava-se cada vez mais talhante.

Ocorre que ao decorrer da trama, a mãe de Ophelia, que já possuía certas complicações em sua gravidez, acaba por adoecer, deixando a jovem menina desesperada, que recorre ao Fauno, para que este lhe ajude de alguma maneira encantada. Entretanto, sua mãe acabou por falecer, deixando seu irmãozinho só, indefeso no meio de um cenário grotesco, macabro e cheio de dualidades. Com sua mãe morta, Ophelia rapta seu irmão de Vidal, momento em que o asqueroso capitão inicia uma sádica caçada à menina. Diante da situação angustiante e aterrorizante, Ophelia procura abrigo no labirinto, onde recebe ajuda do Fauno para despistar Vidal.

Mas, infelizmente sua jornada não se encerrava por aí, o Fauno a lembra que ainda lhe restava uma última tarefa: a realização de um sacrifício humano para seu retorno ao reino do subterrâneo. O sacrifício consistia na escolha entre a vida de seu irmão e sua única chance de retorno. Ophelia acaba por escolher salvar a vida de seu pobre irmãozinho, e acaba sendo assassinada pelo seu padrasto Vidal, que antes de matá-la, e um ato completamente frígido e maldoso, tomou seu irmão de seus próprios braços. Ophelia retornou ao seu verdadeiro lar místico, onde conforme o demonstrado no filme, vive feliz por toda a eternidade.

Del Toro deu a oportunidade para que o público escolhesse em qual dos lados acreditar durante seu filme: o fantasioso ou o real. Diante do cenário caótico vivido à época, A Guerra Civil Espanhola, cheio de conflitos, mortes violentas, falta de tato humano, uma pobre menina e sua mãe são levadas para longe de sua vida na cidade, para as mãos de um sádico e pernicioso capitão, com a promessa de que viveriam seguras e protegidas ali.

O uso da fábula foi realizado de maneira ímpar, pois ao mesmo tempo em que é demonstrada a triste realidade vivida à época, ora, os bastidores de uma guerra, restou demonstrada a inocência de uma criança, que, em meio ao caos, com sua mãe adoecida e depois morta, com o perigo vivendo sob seu mesmo teto, buscou forças no místico, para sobreviver a tudo aquilo. Buscou forças para ser uma sobrevivente, para salvar seu sangue, para ter o mínimo de conforto possível diante de todas aquelas atrocidades.

Ousaria dizer, que O Labirinto do Fauno traz uma versão “fabulada” da Guerra Civil Espanhola. Em todas as guerras já ocorridas, as crianças sempre foram e serão as principais e infelizes vítimas, onde umas, infortunamente são mortas, outras, separadas de seus pais, ou ainda, obrigadas a praticar atos horrendos. Na realidade, Ophelia nada mais do que buscou em seu eu interior criar o fantástico, como sua rota de fuga, seu mundo, sua realidade.

Não restam dúvidas de que O Labirinto do Fauno se tornou um dos clássicos do cinema, comprovando tal ocorrido, o filme foi muito premiado e aclamado pela crítica, ganhando o Oscar nas categorias de melhor direção de arte, melhor fotografia e melhor maquiagem, e sendo indicado nas categorias de melhor filme estrangeiro, melhor argumento original, e melhor banda sonora. Recebeu ainda a nomeação ao Globo de Ouro na categoria de melhor filme estrangeiro. Venceu na categoria de melhor fotografia e foi nomeado para a categoria de melhor filme no Independent Spirit Awards. Foi vencedor nas categorias de melhor filme estrangeiro, melhor caracterização e melhor guarda roupa, e nomeado nas categorias de melhor argumento original, melhor fotografia, melhor direção de arte, melhor som e melhores efeitos especiais no Bafta. Venceu no Goya, nas categorias de melhor revelação feminina para Ivana Baquero, melhor argumento original, melhor caracterização, melhores efeitos especiais, melhor fotografia, melhor edição, bem como, foi nomeado nas categorias de melhor filme, melhor realizador, melhor ator para Sergi López, melhor atriz para Maribel Verdú, melhor banda sonora e melhor desenho de produção.

Conforme diz Jostein Gaarder em sua obra “O Mundo de Sofia”:
“Todas as crianças nascem bem na ponta dos finos pelos do coelho. Por isso elas conseguem se encantar com a impossibilidade do número de mágica a que assistem. Mas conforme vão envelhecendo, elas vão se afastando cada vez mais para o interior da pelagem do coelho.”

Assim, cabe a nós o modo que enfrentaremos cada situação, se levaremos tudo a ferro e fogo, ou se iremos driblar aquele momento de uma forma lúdica, e mais suportável.

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