OBRAS INQUIETAS 59. “Esperança e Desesperança de Ángel Ganivet” (1977), Eduardo Arroyo

Estar vivo sentindo-se morto é o pior tipo de morte que existe: estamos no mundo, mas, ao mesmo tempo, não fazemos mais parte dele. A morte executou a sua sentença, mas esqueceu de nos buscar e, assim, os dias passam, sem gosto, sem vontade, sem cores. Tornamo-nos incômodos, fantasmas adiados a caminhar sem direção pelas ruas. Esperamos um alívio que não chega e, apesar disso, a esperança da salvação de última hora nos traz um fiapo de alegria, a sombra de um sorriso – se estamos vivos, ainda há esperança, não foi o que nos ensinaram? No espelho, não consigo mais ver o meu rosto, somente a caveira antecipada que espera para surgir, triunfal, no meio da pele prestes a se desfazer nas bocas ansiosas dos vermes. Os dias passam, nada muda, e sei que logo chegarei em algum lugar – restaurante, cafeteria, cinema, parque – e os dedos gélidos da morte envolverão meu pescoço, e isso é algo que não posso suportar, tenho medo. Somente o moribundo sabe o real valor da vida que se prende nas suas carnes com a tenacidade de um cachorro faminto; somos uma espécie apartada dos demais seres humanos, nós, os que sabem que não existe mais chance de sobreviver. Respiramos, mas o ar queima a nossa consciência ao inflar pulmões que, em breve, nada mais sentirão; comemos, mas a comida que enche o nosso estômago deixa de fazer parte de outra vida que, inocente, talvez esteja no mundo ansiosa por alimento; bebemos, e o álcool não concede conforto, só desperta angústias. A lógica diz que eu devo desistir, parar de ocupar espaço no mundo, ceder diante do inevitável. Melhor isso do que ser uma pessoa sem objetivo algum, a não ser esperar os dias modorrentos passarem, indiferentes, sempre com a sua promessa de finitude a cada por do sol, sempre com a morte a nos assombrar a cada lufada de ar, a cada gaivota que atravessa o céu.

 

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