Separa de quem? Reflexões sobre tradição e modernidade no filme ‘A Separação’ de Asghar Farhadi

O tema da separação sempre será algo interessante. O filme que traz esse título, sobretudo quando enredado por conflitos tão presentes no cotidiano contemporâneo, também não poderia ser diferente. O diretor Asghar Farhadi soube escolher o título, mas, além disso, soube dialogar com vários tipos de separação que colorem a existência humana.

Podemos perceber que há dentro da estrutura de pensamento ocidental um aprisionamento que nos induz à reflexão sempre a partir de dualidades. É um modus de experimentar o mundo que desde os gregos antigos do qual nunca mais conseguimos nos desvencilhar. Assim, a favor e contra essa estrutura de pensar é que enxergamos o filme em questão. As relações estabelecidas pelo diretor mostram ainda o embate corriqueiro entre a abertura do regime religioso que vive o Irã e a vivência laica que o contato inevitável com o Ocidente realiza. Quando Simin (Leila Hatami), esposa de Nader (Peyman Moadi), resolve se lançar para fora do Irã e viver uma realidade diferente daquela construída a priori pelo regime religioso, ocorre a primeira ruptura ou separação.  Essa ação da esposa evidencia claramente a cisão entre o ocidente laico e o oriente embebido de relações religiosas. A cultura, quando em contato com outras dimensões também entra em um tempo de mudanças, depois do encontro nada maia resta o mesmo. A ideia que a esposa de Nader fazia do mundo estava aliada à querência de uma existência mais liberta para a filha do casal. Esse, portanto, o primeiro ponto a ser pensado, ou seja, em que medida é possível separar? Esse é o local que gostaríamos de chegar.

Quando a esposa sai de casa, Nader contrata uma mulher, nesse momento há uma boa interlocução de ideias entre o regime religioso de submissão das mulheres, ora, Nader contrata uma mulher mesmo sabendo que o marido dela não estava ciente de seu trabalho. Ao mesmo tempo quando Simin resolve sair de casa, o marido Nader também não faz oposição. Seria a sua figura uma representação de um novo momento pelo qual clama uma parcela da população iraniana? É Nader um personagem político?

Essas questões se encontram com outras que também são importantes nesse enredo. O pai de Nader sofre de Alzheimer e não se comunica, sequer responde aos estímulos externos. Esse pai que não se comunica com mundo exterior seria a representação de um regime religioso fechado que oprime as diferenças, aliás, que nem as ouve? O embate da tradição com o moderno se afigura ai. No entanto, essa maneira de raciocinar não seria adequada. Ora, não há novo sem existir em conjunto o velho, não há tradição sem modernidade, tampouco verdade sem mentira. Homem sem mulher e religião sem laicidade. Nesse sentido, não há separação que não carregue em si o peso da cisão. Se há ontem, o hoje está ali carregado, se há amanhã, há nesse porvir um pouco do “hojir”, o presente se soma ao passado e alimenta o futuro, não haverá nunca só um ou outro. Assim, nunca há separação, senão e apenas, releituras a partir do que se viveu, ou não, e morreu, ou não.

Separar, portanto, não seria como dissemos, a melhor maneira de pensar essas mudanças às quais imprimimos ao tempo e sem piedade ele também nos devolve. Não há em verdade separação nua e crua. Há uma sucessão de instantes em que a teia da existência se compõe de amarras desde o que se foi, até distorções a partir também do que ficou para trás. Mas podemos perceber que a sucessão dos acontecimentos sempre traz o cheiro do que ficou para trás, o sabor do que restou esquecido e a réstia também do que nem foi percebido. Não há seco ou molhado. A umidade é marca da existência.

Estamos aqui com um olhar no Corão e outro na laicidade. Não há, como mostramos, um sem o outro. Assim, quando é suscitado o corte com a tradição, em verdade, corta-se na própria carne. Esse peso fica claro na cena que mostra o juramento ante o Corão como prova irrefutável de verdade. Talvez esse seja o grande fio de Ariadne da trama. A verdade é o que está dito no Corão? O juramento por Alá garante a veracidade dos dizeres? Há razão na fé? A verdade está na fé?  É possível uma relação entre fé e razão? Existe verdade? O real há ou apenas realidades? Fugir é a maneira de estar longe do carregamos dentro? Separar não seria fecundar um tempo durante o dia para à noite gerar filhos que avançam sobre os pais?

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