“Boneca Inflável”, de Koreeda, crítica social e o vazio da humanidade

O festival de Cannes de 2018, com Cate Blanchett como presidenta do júri, deu a Assunto de família, último longa do grande diretor japonês Hirokazu Koreeda, a Palma de Ouro. Tendo sido indicado constantemente desde 2001 com Tão Distante, venceu o Prêmio do Júri com o bonito longa Pais e filhos, no qual desenvolve uma trama inesperada de troca de famílias tendo como centro de articulação o filho “de ambas”, um menino de aproximadamente 8 anos.

De tradição japonesa, o intimismo, a dedicação às relações pessoais às vezes mais banais, mas que guardam grandes significados, o olhar atento e lento sempre aos movimentos dos atores compõe, para dizer poucas coisas, sua poética fílmica. Em filmes como Nossa irmã mais nova ou Depois da tempestade, as relações vazias ou inexistentes passam a ser preenchidas, revelando o que há de mais humano em um tempo no qual este não faz mais parte do interesse do capitalismo em expansão.

Esse vazio torna-se o centro estrutural do longa que, dos que tive oportunidade de ver, é sem dúvida sua obra-prima: Boneca Inflável (2009), que também concorreu em Cannes. O enredo é uma grande alegoria sobre as relações vazias num mundo globalizado e comercializado em larga escala, e gira em torno de uma boneca que durante o filme se tornará cada vez mais humana, adquirindo sentimentos muitas vezes mais verdadeiros que os “humanos” que contracenam junto a ela.

A crítica social está posta, mas – e parecido com o que acontece com parte do cinema brasileiro contemporâneo –, o olhar é para dentro, ou seja, para a subjetivação nesse caso, e não para fora, externando objetivamente o problema, mas detendo-se em mostrar como isso afeta a/o personagem. Então acompanhamos a boneca em sua trajetória de objeto sexual propriamente dito (e a crítica a indústria pornográfica compõe o centro da crítica social) para uma mulher descobrindo sua sensibilidade. Um filme sensível e inventivo como só um japonês podia fazer; como só Koreeda podia fazer.

Uma vez ou me perguntaram ou eu vi a pergunta em algum lugar: “qual o cinema que mantém mais claras suas características até hoje”? Era algo assim a questão e minha resposta, um tanto imediata e sem ponderações, foi o cinema japonês. Desde Mizoguchi, Teshigahara, Imamura, até os atuais, e dentre eles Koreeda, é marca desse tipo de cinema o olhar cuidadoso às pessoas em narrativas lentas e complexas, tentando extrair dali o sentimento mais humano, seja ele o amor, a amizade, o ódio, a mesquinhez. É certamente um dos grandes lugares para o cinema.

Rodrigo Mendes

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