A culpabilização do sexo e da mulher no longa ‘O Anticristo’ de Lars Von Trier

Outra vez as mulheres! Como Eva que comera a maçã, a personagem do filme Anticristo de Lars Von Trier fora condenada. O fim da inocência. A morte do filho aquando do ato sexual dos pais. A morte do filho antes da morte dos pais. O fim da cadeia “natural” da existência. A navalha da culpa agora irá cortar a carne. O corpo, sujo e pecador, deve ser castigado pelo pecado contraído quando não resiste às pulsões. O desejo versus a razão. O filho morto. Os pais mortos de prazer. Primeiro o prazer depois o filho. A morte do filho como recompensa pelo ato sexual.

O filme de Lars Von Trier acompanha a crítica nietzschiana a respeito do cristianismo. Quando o filme se desenrola. Desenvolvem também os problemas relacionados com o título e os desdobramentos da moral cristã que acaba por descortinar e criar problemas na existência humana no ocidental. Em um primeiro momento, quando a esposa cai em um luto quase infinito, seu marido, talvez a representar o homem em contraposição a uma espécie de fragilidade da mulher, procura salvá-la racionalmente de sua imersão no luto, que como lembrado pelo pai, é um algo bom e necessário.

Esta aí iniciada uma discussão interessante acerca da naturalização do homem como razão e a mulher como emoção, mais suscetível às mazelas das emoções. Nessa senda de discussões, os dois vão para uma espécie de bosque chamado Éden, as leituras sobre a evidenciação acerca da mulher portanto podem ser mais bem compreendidas. Eva e a maçã. A carne que torna irracional e deixa o filho morrer. Estaria também Von Trier a mostrar que desde sempre o peso do pecado recai sobre a mulher? Nesse sentido, é interessante perceber que o marido alerta que também estava lá. Mas a mulher diz que ele não sabia das peripécias do filho. Ou seja, a culpa é minha!!!

Culpa. Sólido argumento que sustenta o cristianismo. Seria talvez o marido esse anticristo que busca retirar da mulher esse peso que vem sendo acrescido desde sempre na cultura judaico-cristã do ocidente? Pois, enquanto a mulher não consegue se desvencilhar do peso da culpa pela morte do filho, o marido a convida a lutar. Nietzsche em um pequeno diálogo de seu livro homônimo ao filme simboliza isso:

“O que é bom? – Tudo que desperta no homem o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder. O que é mau? – Tudo o que nasce da fraqueza. O que é a felicidade? – A sensação de que o poder cresce, de que uma resistência foi vencida. Nenhum contentamento, mas mais poder. Não a paz acima de tudo, mas a guerra. Não a virtude, mas o valor (no sentido de Renascimento: virtu, virtude desprovida de moralismos).”

Ao mesmo tempo, percebe-se que a tese estudada pela mãe estava a simbolizar essa questão que estamos a discutir a respeito da chaga lançada pelo cristianismo sobre a mulher, essa portadora do gosto da maçã. O feminicídio na Idade Média. Esse era o tema de sua tese. Ela passara um tempo a sós com o filho, no mesmo lugar em que estava agora com o marido. O Éden. Contudo, parece que ao invés de perceber que o problema nascera ali com a invenção de que a mulher seria pecadora e merecia esse tratamento. A culpa pela morte do filho invertera a ordem das questões e a mãe agora entende que há uma natureza má no feminino que ela estuda. Isso deve ser combatido. Não seria errada a “caça às bruxas”, elas de fato são más e carregariam dentro de si esse mal. A expiação da culpa aparece em uma das cenas mais interessantes, quando ela mutila seu clitóris. Essa cena por si, diria do objeto que enxergamos no filme. O cristianismo sempre negou a carne. Impura. O mundo, sujo. E como recompensa dessa negação haveria o céu. Nesse caso, a culpa poderia ser expiada com o sangue que jorra de dentro do corpo sujo. O mesmo desejoso que matou o filho.

Em “A lógica da criação”, Osvaldo Montenegro canta: “Se o sexo é tão proibido Por que ele criou a paixão (…) Se Deus criou o desejo Por que que é pecado o prazer Nos pôs mil palavras na boca Mas que é proibido dizer”. Isso evidencia os questionamentos acerca da questão da culpa. Do pecado da carne e do feminino. A mulher, essa que carrega o peso da morte do filho acaba morta pelo seu marido. Talvez a denotar aquilo que Nietzsche fala, que os fracos e incapazes devem mesmo perecer. O anticristo é o marido que racionaliza a fraqueza e a culpa da mulher, não aceita essa culpa, quer viver enquanto ela se entrega ao superego cristão que sustenta o ocidente. Não poderia o filme ter outro título. E discussões assim servem-nos para perceber que naturalizações como a culpa, o bom, o mau, o mocinho e o bandido podem levar à loucura, posto que do humano, diz a história, esculpida por ele, que o esculpe, mata, vive, goza, ri e chora. “Deus está morto”. Assinado: Nietzsche. Nietzsche está morto. Assinado: Deus. Acenda sua vela!

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