O racional e o passional no longa ‘Rush: no limite da emoção’ de Ron Howard

Não sei bem qual será a medida das palavras aqui nesta prosa. Escrevo ao mesmo tempo em que assisto o filme Rush: no limite da emoção de Ron Howard. A narrativa em alta velocidade conta fragmentos da vida de Niki Lauda, desde seu financiamento próprio para adentrar ao mundo da Fórmula 1, passando pelo seu brilhantismo cartesiano nas pistas e no arranjo do carro, até sua disputa incessante com o rival James Hunt.

Essa narrativa poderia se prender aos excessos perpetrados pelos protagonistas. De um lado o excesso racional de Lauda, de outro, o excesso dionisíaco de Hunt. Seria essa guerra uma luta nas pistas daquilo que é id e daquilo que é puro superego? Há uma medida para o triunfo? Uma regra ou um caminho determinado?

O filme é uma guerra entre o dionisíaco e o apolíneo. Enquanto aquele apresenta toda a pulsão para o gozo e sua realização, um bacante, de outro lado, o apolíneo representa uma determinação pela forma, o cuidado com a organização. Assim, Hunt e Lauda protagonizaram um duelo no qual há a exposição daquilo que Nietzsche quis mostrar como as forças que estão ao redor das ações humanas. Contudo, pensamos que exatamente aqui mora a grande questão que nos esta colocada no filme.

Não se trata de pensar de maneira polarizada, parece que esse é um grande problema que foi estruturado desde a cisão de mundos operada em Platão. Assim, a questão de Lauda e Hunter não se resume a uma estrutura apolínea ou dionisíaca. Mais que um Dionísio em busca de emoção pura, havia em Hunt a argúcia de operar racionalmente entre uma curva e outra essa fera indomada que habitava seus instintos. De outro lado, e essa é uma importante questão do filme, quando Lauda sofre seu acidente e luta bravamente para voltar às pistas, e, contra as expectativas, consegue. Podemos observar exatamente o que pretendemos com estas palavras, ou seja, não há uma maneira de conceituar e finalizar em uma ou outra descrição aquilo que é do humano. Ora, cada um ali, à sua medida, excedeu e foi racional.

Lauda poderia ser considerado frio e com um pensamento quase matemático em sua maneira de pilotar. Contudo, exatamente no exercício desmedido de sua racionalidade morava sua parcela de genialidade e Dionísio. Assim como o excesso de Hunt com as mulheres, o álcool e sua maneira de pilotar agressiva, simbolizava em verdade a sua mais pura faceta racional. Logo, não haveria uma medida para explicitar o gênio. Nele habita a pluralidade que se manifesta e cria aquilo que pensamos se aproximar do kairos grego antigo. A manifestação correta no momento correto. Politicamente Maquiavel chamaria isso de ocasione. Essa mistura que eclode no momento preciso, na curva certa e transcende as dificuldades da pista restam claras nos gênios de Lauda e Hunt.

Apenas como forma de mostrar como isso é evidente, Lauda, no ano em que sofrera o acidente, na última corrida da temporada que decidiria o campeão, resolve abandonar por causa das más condições da pista. A esta altura, ele já havia se apaixonado, e pensamos por aí seguirem as melhores conclusões.  Nesse momento resta claro que a racionalidade de Lauda não permitia que ele corresse riscos. Ao mesmo tempo, essa mesma ratio sinalizava que ele poderia correr vários outros anos – isso seria um risco excessivo em um ano em que ele já havia ressuscitado. O risco calculado que tinha um troféu maior à sua espera, a mulher pela qual ele já se havia apaixonado. Há amor na razão. Há no filme uma boa dose de alteridade. Ao fim, Lauda revela que Hunt morrera prematuramente de infarto, revela também que isso o entristecera. Revela mais: diz que talvez que isso o tornasse menor, pois se somos a partir do outro, naquele contraponto de sua razão morava a chama para o infinito. Às avessas, Lévinas e sua ética da alteridade andaram naqueles carros voadores, infinitos. Como flashs e vidas.

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