‘Persona’, de Ingmar Bergman, e o cinema

Ingmar Bergman foi um dos grandes nomes do cinema no mundo. De vasta produção, começou no teatro e depois de um tempo passou a conciliar essa arte com outra, o cinema. Essa formação como dramaturgo aparece de diversas formas em sua obra cinematográfica (o que conheço do diretor): desde O Sétimo Selo, clássico filme do diretor, no qual o roteiro era na verdade a peça escrita por Bergman, aos personagens constantemente artistas de teatro, como em O rito, Persona, do qual esse texto se trata, no próprio Sétimo Selo e assim por diante. Sempre com a mão pesada, Bergman dirigiu filmes densos nos quais as relações pessoais e familiares saltam ao primeiro plano, às vezes rejeitando certo “realismo” formatado dos anos anteriores do cinema para atingir um realismo de fato verdadeiro e profundo (talvez acompanhando a chamada nouvelle vague, movimento de um novo cinema, que nasce na França, rejeitando o cinema realista que o precedeu).

Persona (cujo nome em português é o ridículo Quando duas mulheres pecam) é, de maneira geral, considerado a obra-prima de Ingmar Bergman. Segundo o próprio, é seu ponto mais alto no cinema e de certo modo presta uma homenagem a ele. O filme começa com aquela seqüência de imagens rápidas e pouco discerníveis, mas das quais conseguimos ver um fragmento de um filme dos irmãos Lumière (criadores do cinematógrafo, tecnologia que possibilitou a gravação de imagens lá no final do século 19). Essa referência, depois de vermos ser ligado o projetor e as imagens aparecerem, abre uma possibilidade de interpretarmos o filme como uma homenagem ao fazer cinematográfico, se tratando então de uma metalinguagem. Um filme sobre um filme, ou sobre os filmes, sobre o cinema. Isso se reforça por pelo menos duas coisas: a) o nome “persona”, que significa a máscara que era utilizada no teatro grego (a referência vai além do teatro, já que no cinema também os atores usam uma máscara, encarnando seu personagem); b) o enredo gira em torno de duas mulheres (uma atriz) que, ao passarem um tempo juntas numa ilha, têm suas identidades confundidas – quem é quem? serão a mesma pessoa? – questionamento que traz à tona o debate sobre ficção, no qual o cinema e as artes em geral se apoiam.

O menino do início, que toca a tela sem poder de fato tocar a imagem; as imagens do projetor ligando e desligando; a cena da foto, encenada duas vezes de ângulos diferentes depois de rebobinada; os constantes planos através de vidros, véus, espelhos, que parecem impedir uma visão limpa do “real”; as fusões dos rostos de Elisabet e Alma; todos esses elementos parecem lembrar o espectador de que o que assistimos, embora pareça real, é um filme. Não é verdade nem mentira, é ficção. Interessante pensar também que o menino, ao tentar tocar a tela na cena inicial e não conseguir, porta-se em última análise como um espectador, igual ao nosso papel como espectadores do cinema. Isso mostra que o centro do filme é a relação entre ser e parecer.[1] A relação entre o cinema e a vida real é exatamente essa, e no filme está representado na relação das duas mulheres, uma parecendo representar aquilo que a outra deseja. Mostrado constantemente no filme, a troca de experiências, ou de expectativas, frustrações etc, compõe o centro da narrativa.

Talvez um filme de tão grande complexidade sobre o cinema (mas se tratando de Bergman, esbanjando também grande complexidade estética e de relações pessoais) só tenha acontecido de novo com Holy Motors (2012), de Leos Carax. Seria interessante compará-los em função de sua metalinguagem, considerando o espaço de mais de 50 anos entre eles. Persona é um filme incrível, de múltiplas interpretações. Penso ter sintetizado alguma coisa desse imenso debate.

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[1] Sugestão dada no debate após a sessão que assisti na Cinemateca Capitólio em Porto Alegre. A mesa era composta por Flávio Mainieri e Raul Hartke, com mediação de Helen Beltrame-Linné, pesquisadora da obra de Ingmar Bergman. A sessão quase não ocorreu devido à política canalha e explicitamente contrária ao funcionalismo público de Porto Alegre por parte do prefeito Nelson Marchezan Jr. (PSDB). Houve ato na Câmara de Vereadores no mesmo dia no qual uma funcionária da Cinemateca foi detida pela Polícia Militar. No início da sessão, um grupo de funcionários e colaboradores do espaço fez uma fala explicando o acontecido.

Rodrigo Mendes

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