‘Solidões’, filme de Oswaldo Montenegro

*Texto a ser lido ao som do DVD “Intimidade” de Oswaldo Montenegro.

Demônio. Sertão. Estrada. Interior. Capital. Rio. Mar. Poeira. Rua. Quarto escuro. Branco. Preto. Bar fechado. Madrugada. Amor. Não tempo. Tempo ruim. Chuva. Sol. Canto. Ouvido. Solidão. Deus. Amor. Saudade. Sucesso. Memória. Dor. Salvação. Bailarina. Poeta. Trovador. Bêbado. Palhaço. Riso. Morte. Todos termos que dizem daquilo que não quis ser só. O filme “Solidões” de Oswaldo Montenegro é uma composição cinematográfica que nos instiga a pensar sob diferentes vieses. Há uma interação de artes. Talvez esse seria um bom mote para falar do interdisciplinar nesse filme. Essa seria uma boa soleira a deixar entrar a luz do cinema, com a melodia das palavras entoada de poesia e música. Há no filme um namoro de expressões humanas. De alguma maneira o título brinca com a impossibilidade conceitual do humano. De alguma maneira Oswaldo Montenegro chama atenção para a necessidade do outro para nossa primeira aparição. O demônio saudoso de deus. A memória arredia à verdade. O sertão sonhador da cidade.  A namorada carente da presença. O garçom nasce com a ausência do namorado que não vem. O duplo que inaugura a solidão faz nascer também o infinito do que vem. A solidão do filme seria nesse caso aquela parcela infinita do que não podemos prever. Pode-se dizer que a manjedoura do infinito seja solidão. A face outra da invenção. O próximo verso do poema que traz tragédia, que faz amor.

É importante ressaltar essa face holística com que o humano é visto nessa película. Parece que há uma preocupação, quase distraída, de evidenciar uma tão malfadada tentativa moderna de captar o humano em esquadros conceituais. E exatamente nesse momento é que as faces se vão misturando, tendo como esteio essa coisa da solidão, mas que em verdade parece apenas uma maneira de dizer que por mais que 80% das coisas inventadas sejam feitas para assolar essa solidão, até mesmo nesse sentimento, que paradoxalmente nos une, por ser um traço quase comum há diversidade. Por isso a importância do outro, que aparece na face infinita que nos trará um algo que aplaque essa solidão, ou que a faça nascer de maneira diferente. É um filme sobre alteridade. Sobre pluralidade. Sobre o infinito que é o humano. Aquela que é só. Aquele que é o outro. Aquele que ri, chora, reza e desdiz a vida. Paradoxos que compõe o humano. Sozinho, mas que carrega no encontro essa possibilidade do infinito. De outro lado, quando assistimos o filme de Oswaldo Montenegro, há uma confissão, um dito de intimidade. Aliás, esse é o título de um show que o diretor gravou em sua própria casa. A partir de agora penso poder mostrar que quando Oswaldo quis falar da solidão em seu filme, na verdade falou de si. Confessou que não há amor sem solidão. Para que exista poesia, em algum lugar, o papel tem que ter sido branco – esperando rasura. Confessar a solidão é reconhecer o outro enquanto nosso artífice.

“Pra longe do Paranoá”. Há um sonho, e para sonhar tem gente que fica só, em Brasília, quase sempre no sertão. “Eu conheço o medo de ir embora, o futuro agarra a sua mão, será que o trem que passou, ou passou quem fica na estação”. Ir embora é ficar também. Pois quem vai, leva um pedaço de quem ficou, e a estação carrega todas essas idas e vindas. Um local ambíguo de solidão. Paradoxos. Ai vem, “toda vez que eu volto, tô partindo, e no sentido exato é por saudade”, essa canção poderia dizer do filme. Sinônimo de saudade é solidão. Solidão do outro. Solidão e saudade são sinônimas e se explicam pela sua imensidão e seu paradoxo. Pois só há solidão porque houve outrora um outro ou outra. Só há também saudade pelo mesmo fato. Elas não são palavras simples. Celebrar é jeito de aplacar a solidão. No entanto, para celebrar tem que haver solidão, senão nem se vê. “Que a paixão saiba cuidar de nós!”, seria uma ode para a não solidão, há mais solidão e infinito que um menino que brinca na areia? Me parece, “Lua e Flor”, uma ode aos sonhos, um canto de solidão. Os amantes ficam sós, amando seus objetos amados. Na fala do próprio Montenegro, “a separação é o início de uma coisa”. Isso é o fim de uma solidão, o início de outra. Sem Bia não há Léo. O amor, avesso da solidão. Criador e algoz. Não há “intuição” sem solidão. Nem nasce sozinho o mínimo ré, nem dó, maior. “Olhe bem nos meus olhos”. Solidões é expressão de amor. Não há nada menos que “aquela coisa toda” dentro do próximo olhar. Há pessoa mais só e habitada que uma criança? Ela diz de todo o filme. Só enquanto sonha. Só depois que adulto conhece o fim do sonho. Sem sonho fica só, não entende mais nada. “Acho que ser ou não se ser veado tá ultrapassado e não me leve a mal”. Há mais solidão do que nos conceitos? Então, aqui vai um blues para o fim deles. O “condor” a dançarina e o bandolim, solitários em sua sina de dançar, bandolar e voar. Cada um com seu infinito junto.  “A lista” da vida fica gravada nas solidões. Elas trazem nossas lembranças, sem elas não há solidões. Cada encontro traz em si uma solidão. Cada amor traz o encanto de esperar. Cada vez que escrever solidão, vai ver nascer um infinito, talvez ali seja o amor. De novo, avesso e irmão as solidão, irmãs nossas que habitam cada um de nossas dimensões. Sozinhas…

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