‘Manhattan’, de Woody Allen, um filme sobre a cidade e o amor

Foi o próprio Woody Allen o primeiro a declarar que os norte-americanos não entendiam seus filmes. Engraçada a frase. No contexto em que escrevo, na verdade, apenas comparece no texto porque nessa madrugada não me apetecia nada para iniciar a prosa com o filme Manhattan, de 1979. Há uma fala no livro Nomes do Pai, de Jacques Lacan, que nos diz “que um fenômeno só é analisável caso represente outra coisa que ele próprio”. É interessante observar essa fala na perspectiva do filme em questão.

O personagem em conflito, Isaac Davis, é representado pelo próprio Allen. Daí iniciamos nossa prosa que de alguma maneira já vem anunciada na frase de Lacan. Seria ali um alter ego a se dizer de si próprio? Não hesitaríamos em dizer que sim. Aliás, quando este diretor em outras obras acaba por romper com a parede entre a tela e o espectador, em verdade apenas estaria a nos dizer o que supomos ocorrer em criações artísticas: uma mistura entre a invenção da vida com a realidade da arte, e vice-versa. Assim, apenas sendo analisável algo que represente outra coisa, o filme nos empresta dimensões bem interessantes. Isaac tem um relacionamento com uma jovem belíssima de  dezessete anos. Ele já tem 42. Na mesma trama, o diretor tem um emprego que detesta. Não é feliz. O programa é de humor. Ele reiteradamente convence a sua namorada adolescente de que ela é feliz com ele, sobretudo por conta de seu humor e bom desempenho sexual. Há outro dizer que se tornara quase dito popular: “quanto mais Pedro fala sobre Paulo, mais sabemos acerca de Pedro”. Poder-se-ia cientificamente chamar-se de teoria da transferência. Não iremos aqui desenvolver a questão.

Isaac tem um amigo (Michael Murphy) bem-sucedido no casamento e na vida profissional. Professor. Esse amigo tem uma amante (Diane Keaton). Mas ao mesmo tempo conflita com seus valores monogâmicos. A amante, uma bela e muito bem-sucedida mulher de idade madura, porém longe de ser velha, também vive em conflito. Os domingos são mais cinzas para os que vivem em situação amorosa extraconjugal. Essa informação foi colocada no texto para que pudéssemos explicar que com a crise entre o professor bem-sucedido e a amante bela e bem-sucedida, e não muito velha, o próprio Issac se insere. Iniciam uma relação não muito amistosa – Allen, que é Isaac, e a bela e não-muito velha mulher, bem-sucedida – de alguma maneira rusguenta, típica dos inícios de amor. Os opostos se explicam e não se atraem necessariamente, como queria a física. Quem falou que se explica pelo avesso foi Platão, não Freud. Nem esse último queria mais esse peso.

Bom, interessante é que Allen e a mulher não muito velha e bela tiveram um bom romance. Apadrinhado de perto pelo professor bem-sucedido e ex-amante. É um bom termo para a literatura jurídica. No entanto, logo, a amante torna a seu estado de amante. Volta a se encontrar com o amigo de Allen, o professor bem-sucedido. Ela, a mulher bela e não muito velha rompe  com Isaac, que a esta altura já havia descartado a bela e muito jovem Tracy (Mariel Hemingway), sob o pretexto de que as idades eram por demais incompatíveis. A esposa do professor bem-sucedido entende um pouco a traição. Allen tem um rompante, quer reatar com a jovem e bela Tracy – um homem de quarenta e dois anos tem um rompante e percorre correndo as ruas de Manhattan para tentar impedir uma jovem de dezoito anos de viajar para a Inglaterra.

Retratos interessante de uma cidade. Dissemos sobre Lacan, ao início, por dois motivos. Era um filme sobre a cidade. Que ferve. Arrefece. Vive e morre. Mas principalmente ri e chora, com desdém, para todos aqueles que não percebem que o amor, esse sim será a mola que nos dire-(a)ciona, caoticamente sobre os trilhos de nossos dias – feito c(idades) – se esbarrar, pare, suba, desça, mas sobretudo, viaje, porque um fenômeno só é analisável,  caso represente outra coisa que ele próprio: o amor é bom, não quer o mal…

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