A estrutura literária e social de violência misógina em ‘o remorso de baltazar serapião’

Valter Hugo Mãe, em seu livro o remorso de baltazar serapião, molda uma estrutura de violência não só, mas essencialmente misógina, que foi perpetuada por séculos e séculos pela Igreja Católica, pelas sociedades patriarcais hierárquicas, enfim, por um imaginário social construído de inferiorização das mulheres.  O romance gira em torno da família patriarcal de Baltazar, que vive com seu pai e sua mãe, irmão e irmã, e vê constantemente a violação da liberdade de sua mãe por seu pai, a violência a que é submetida e, por fim, sua morte. O romance é sobre a extrema violência contra as mulheres e indica uma suspensão do processo histórico, já que ambientado na Idade Média e escrito contemporaneamente, estabelece uma linha contínua de opressões e barbáries a que as mulheres são acometidas.

Este texto abordará três eixos de análise, unindo-os através do prisma da violência misógina secular. São eles: o que José Gil chama de queixumes, ressentimentos e fechamento da sociedade portuguesa; a noção de pecado no medievalismo; o que, afinal, é o “remorso” dito no título.

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A sociedade portuguesa, segundo Gil em “Queixume, ressentimento, invejas”, transporta para o público os afetos do privado. Age nas instituições legais e espaços sociais públicos através de relações pessoais e não impessoais, como estas requerem (e relação com a cordialidade de Sérgio Buarque de Holanda e o caráter brasileiro é imediata). É nesse contexto que Gil situa a inveja. Junto a isso, situa também o queixume e outros traços da identidade portuguesa. Além disso, marca também que a inveja funciona como um nivelador social, também através do queixume. Diz ele:

“Um dos seus efeitos imediatos é a paralisação de toda a dinâmica do novo. O que surge como diferente aparece como uma ameaça à igualdade eu a inveja protege. Igualdade niveladora por baixo, como vimos, porque impede a expressão da singularidade: toda e qualquer manifestação de originalidade é considerada superior, e rejeitada.” (grifos do autor, p. 86)

Aqui já temos alguns elementos para olhar o romance de outra forma, como uma inveja à originalidade de Ermesinda, esposa de Baltazar, e sua consequente mutilação e morte.

Baltazar e Ermesinda se casam, e logo demais ela é requisitada por Dom Afonso, nobre local, para visitas diárias a sua casa. Imediatamente Baltazar é tomado por um ciúmes doentio e começa a mutilar sua esposa, começando por entortar seu pé (há uma indicação sutil no início do romance que o pé de sua mãe está torto, mas o narrador só contará a razão depois – o pai, por alguma desconfiança ou mesmo por algum motivo mais simples, cometeu esse ato infame – ou seja, a violência contra as mulheres é hereditária). As violências seguirão se intensificando até arrancar um dos olhos dela e, então, espancá-la quase até a morte (ele de fato achou que a havia matado). Pois bem, em meio a toda essa violência, Baltazar um dia pergunta a razão das visitas, pois a violentou pela primeira vez sem antes ter perguntado, e a resposta era que Dom Afonso gostava de conversar com ela. É impossível, na visão de um homem como aquele, imaginar que isso fosse verdade. Há aqui, portanto, além de uma limitação histórica do horizonte de expectativa dos personagens, uma inveja pela sensibilidade de Ermesinda, inclusive por sua inteligência, já que Baltazar não passava de um grosso, rude e violento como seu pai. Outra inveja é a da esposa de Dom Afonso com Ermesinda.

O que está bloqueado pelo que disse no horizonte de expectativa de  Baltazar é a correlação de forças que envolve os estamentos sociais da época. Há uma cadeia de opressões hierárquicas que vem de El-Rei, passando por Dom Afonso, nobre, também junto ao clero local, e que chega, já em um terceiro nível, aos pobres que são os Serapião. Aqui, além da opressão de classe, há a opressão de gênero, já que Ermesinda e sua sogra são constantemente violentadas até sua morte justamente por serem mulheres. O feminicídio é regra naquela sociedade e, através de uma suspensão do tempo histórico, também chega aos dias de hoje, mais ameno (em alguns lugares mais que outros), mas segue com força. Basta ver, por exemplo no Brasil, que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada[1]. Aqui já está claro que o conservadorismo e o fechamento da sociedade portuguesa, presente em José Gil, se materializa no romance, tento caráter de princípio estruturante.

Esse pensamento e essa violência patriarcal são o cerne do romance. Baltazar fala com a maior naturalidade das violências que pratica, sem remorso algum (veremos, ao final, que é possível que esse remorso do título seja irônico). No capítulo treze temos uma boa amostra de como esse narrador encara a realidade de seu relacionamento. Falando da Ermesinda: “(…) acordava cedo para se encaminhar a dom afonso, e ficar a vê-la sair sem pressas nem sinais, mas certamente em anseios grandes por se meter debaixo dele” (p. 107).[2] O que o autoriza a pensar desse modo? O debate sobre o narrador é muito próximo ao que se faz em relação a Machado de Assis, principalmente a Bentinho em Dom Casmurro. A diferença é que, no caso brasileiro, Bento Santiago é um homem da elite carioca, e o que o autoriza a emitir juízo de valor com estatuto de verdade inquestionável é a propriedade, além do fato de ser homem. No caso português, o que o permite a ser assim é a condição de gênero, ainda mais violenta e mortal na Idade Média, tempo do romance. Baltazar aprende em casa e na rua que mulher é como um animal – e no romance a ironia é ainda mais cruel, já que há uma sobreposição entre a vaca da família, a Sarga, e as mulheres, o que fica claro desde o início, com as piadas feitas sobre o nascimento de Baltazar e seu irmão, além do desfecho, no qual parece haver uma ligação inextricável entre a Sarga e Ermesinda.

Último ponto em relação a este tópico é a relação de Portugal com o progresso. Segundo Gil, há um forte retraimento dos portugueses em relação ao avanço, em relação ao novo. No romance, há um curioso jogo de palavras, principalmente de verbos no tempo condicional (prefixo -ia), que parecem reforçar a ideia de uma mudança que nunca chega, um eterno tempo de espera. Aqui parece ter um jogo entre o campo de experiência, imutável mesmo que os personagens pareçam almejar, como exemplo o trecho a seguir, e horizonte de expectativa possível, mas que nunca chega nem chegará. Quando do anúncio da vinda de El-Rei: “(…) el-rei estará entre nós como bênção mais divina, e tudo do diabo se levantará ao poder de sua presença e nossas vidas novamente se encaminharão” (p. 110). Conservadorismo, impossibilidade de mudança, e agora um novo tema, o diabo, relação com o próximo tópico.

Outra parte da análise que faremos agora é sobre a noção de pecado na Idade Média, à luz do verbete “Pecado” do Dicionário Medieval e em relação às mulheres.

O pecado surge como uma mediação social entre a religião e a sociedade, forma de ordenar o mundo através da religião. Dois pecados sobressaem da narrativa, tendo como figuras de ação ou de receptoras as mulheres: a inveja e a luxúria. Ermesina e sua sogra são alvos da violência de seus maridos por, a supostamente, os terem traído, logo, o pecado a luxúria. Teresa Diaba, cujo próprio nome já indica um pecado, é também vista como pecaminosa por fazer sexo com vários homens. Mas há também a inveja, que, como estamos argumentando, é o que Baltazar sente por Ermesinda. Essa inveja talvez seja fruto de um recalque próprio de Baltazar por duas razões: não é inteligente e cativante o bastante para ver em sua esposa qualidades que lhe faltam; inveja de Dom Afonso, já que em sua visão, Ermesinda não é totalmente sua propriedade, mas a compartilha com o nobre, fato que desencadeia, como dito, um ciúmes doentio e a consequente mutilação e morte de Ermesinda.

Há ainda um desdobramento esse pecado em uma figura enigmática que é a Mulher Queimada. Ela não tem nome, mas pelo epíteto se infere que foi condenada à morte na fogueira, mas de algum jeito escapou. Descobre-se depois que ela é uma feiticeira (aparições sobrenaturais começam a aparecer na narrativa após a aparição dessa personagem, o que indica um cotidiano da ordem do maravilhoso e do pecado, fundamentais para entender o contexto histórico da época). A Mulher Queimada representa outro tipo de pecado, que está associado à blasfêmia, já que poderes sobrenaturais só são concedidos ao Deus católico, criador do mundo. Para além disso, fica claro que, para ela ser uma uma mulher do jeito que é, (forte, que não só resiste à condenação de morte, mas também tem opiniões mais libertadoras e emancipatórias para as mulheres) só podia estar associada ao signo do pecado, representando uma ameaça àquela sociedade, pois desvirtuava da ordem estabelecida. Ela representa um ponto de tensão do romance, mas sua aparição em uma pequena parte do romance é significativa, já que uma mulher sozinha não é capaz de combater uma sociedade inteira que se assenta na violência de gênero.

Por fim, o tal remorso que dá título ao livro. Uma leitura à primeira vista seria que Baltazar teve remorso de abdicar de sua mulher, submetê-la às condições de extrema violência que ele a submeteu, enfim, por não ter valorizado sua mulher. Porém, interpreto um pouco diferente. Diante de tudo que foi exposto, retomo dois pontos que julgo centrais para análise desse desfecho, que são as noções de inveja e sua consequente designação de pecado. Embora aquele narrador nos diga, em outras palavras, que se arrependeu do que fez, analisando o romance todo fica difícil crer que é somente isso. Após uma narrativa que acumulou opressões e violências físicas e psicológicas, não seria muito estranho que, quando Baltazar percebe que todas noites seus dois companheiros violentam sexualmente sua esposa já à beira da morte, sem condições de se mexer, tudo por causa das constantes violências de Baltazar, ele sentisse inveja por não ser ele opressor, assim como tantas vezes foi. Um sentimento de posse que volta à tona, mas que é mascarado por um lampejo de “humanidade”, levando-o então ao ato de matar ambos, mesmo que isso causasse sua morte pelo feitiço que a Mulher Queimada lhes fez. Um remorso às avessas, que num continuum de violência, passa a ser pensado e sentido por Baltazar, mas que no fundo carrega os sentimentos que ele a vida inteira cultivou: violência contra mulher, inveja, sentimento de posse.

Rodrigo Mendes

 

[1]<https://agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/casos-de-estupros-no-brasil-diminuiram-em-2014-segundo-anuario-de-seguranca-publica/> Acessado em 22/10/2018 às 17:31. O dado é referente ao ano de 2014. Na Agência Patrícia Galvão encontra-se vasto material empírico sobre a violência contra a mulher no Brasil.

[2] As referências ao livro são da edição MÃE, V. H. o remorso de baltazar serapião. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2018.

Referências:

MÃE, V. H. o remorso de baltazar serapião. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2018.

GIL, J. “Queixume, ressentimentos, invejas”. In: Portugal, hoje: o medo de existir.

LE GOFF, J. e SCHMITT, J. “Pecado”. In: Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru: EDUSC; São Paulo: Imprensa oficial do estado, 2002. v. II.

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