Para ficar sem palavras: lançamento da antologia de contos ‘Sem/Cem palavras’

Hoje eu vou falar um pouco sobre a antologia Sem/Cem palavras da qual eu participei. O livro é formado por vinte autores, entre eles as organizadoras: Cinara Ferreira e Fernanda Mellvee (que é a minha mãe). A sessão de autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre será no dia 10/11 (no próximo sábado). Eu indico muito ler esse livro pelo fato de que temos histórias de todos os tipos. Mas como assim? Simples, cada autor escreveu cinco contos de cem palavras, e esses contos são de todos os gêneros. Exemplos: terror, literatura fantástica, histórias de amor, entre outros… Eu amei participar dessa antologia, e espero que vocês gostem!

Aqui vai uma amostra do que vocês encontrarão no nosso livro:


Venezia, bella Venezia

As gôndolas passam entre seus densos canais. Violeta e vermelho. Dourados anjos pequeninos, hipocampos, gondoleiros de camisa listrada e chapéu de palha achatado. E eles cantarolam. Moradas suntuosas escondem em cada vão de tijolo uma lenda, um momento, um suspiro. Seus ilustres patrões são desconhecidos aos passantes, turistas imersos no passado, admiradores, venezianos de coração e de fato. Máscaras coloridas, Rialto grandiosa, San Marco e seus leões, Palazzo Ducale e seus afrescos. Os dias brilham, as noites passam e as feras de pedra continuam no alto de seus batentes encarando sua Venezia, bela Venezzia. É o lugar perfeito para morrer.

Da Aline Pascholati, criadora do Artrianon.

A arte das artérias

Rolava para fora da cama a uma velocidade assustadora; o mundo girava ao redor de meus olhos e se cobria de vermelho conforme meu pescoço resvalava sobre a cama e logo em seguida sobre o piso, ambos cobertos de sangue. Minha cabeça girava pelo chão, deixando um rastro vermelho, até ir parar junto ao pé da cama, com o pescoço para cima. Foi então que vi o mundo ao contrário e, com os olhos perto do chão, senti gosto de sangue me inundando a boca e vi que meu pescoço sangrava litros. Sabia que um dia eu perderia a cabeça.

Da Amanda Leonardi, que também escreve para o site.

Sopro

E de mansinho ela deu seu costumeiro sopro no canto da tela. Ele apareceu de imediato. De mãos dadas seguiram para o quarto. Deitaram na cama de lençóis arejados. Trocaram juras de para sempre. Trilharam o caminho tênue dos apaixonados. Em mil futuros se projetaram. Desenharam uma casa sob um céu de azul e sol. Arquitetaram um jardim de amor perfeito. Extenuados, dormiram no enlaço da certeza de que agora não se perderiam mais. Sonharam e suas mãos suadas se apertaram. De repente ela começou a sofrer de véspera. E de mansinho deu seu costumeiro sopro no canto da tela.

Da Cinara Ferreira, uma das organizadoras do livro.

Criatura

    Pela manhã, o canto era de um canário, bonito, suave. No meio da tarde era insuportável aos ouvidos de Ana Vitória. Como aquele pássaro ousava impedir sua sesta de grávida?

     Ana Vitória entregou algumas moedas a uns meninos da vizinhança, para que encontrassem a criatura.

     Quando lhe contaram que num vão do telhado era possível enxergar um bicho semelhante a uma aranha com tentáculos de polvo, ela dobrou a oferta. E naquela tarde muda, ao contemplar os restos indecifráveis dispostos sobre uma pá, alisando a barriga de nove meses, ela sorriu por ter livrado o mundo de um ser desconhecido.

Da Fernanda Mellvee, que também é uma das organizadoras.

Uma irmã fora do comum

      Todos diziam que sua irmã era louca, mas Raíssa sabia que estavam errados. Ela ficava furiosa sempre que alguém dizia que Denise não era normal. Elas viviam sozinhas, os pais morreram num acidente quando as duas eram adolescentes. Um dia, Raíssa se casou com Luccas, e foram viver em outra casa, deixando Denise sozinha. Luccas não gostava dela.

      Raíssa expulsou o marido de casa no dia em que ele disse que sua irmã era louca. Na noite do mesmo dia, Raíssa ouviu Denise chamando no portão: – Raíssa, vim tomar o café da tarde com você. Eram duas da manhã.

Da Melissa Mellvee, que sou eu!

O livro pode ser comprado na Feira do Livro de Porto Alegre e pelo site da Editora Bestiário.

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