Dica de leitura: conto ‘O beijo’, de Tchékhov

“O beijo”, conto de 1887 no qual Antón Tchékhov demonstra toda a sua maestria no gênero, tem início com a chegada de um grupo de soldados à aldeia de Miestietchko, local onde são convidados para um jantar na casa do Tenente-General Von Rabbek, como acontece a todos os militares de passagem pela região. Entre os visitantes encontra-se o Capitão Riabóvitch, o protagonista, uma figura muito tímida e retraída, como podemos observar a seguir:

(…) oficial pequeno, um tanto curvado, de óculos e de suíças que lembravam um lince. Enquanto uns dos seus colegas aparentavam seriedade e outros tinham um sorriso forçado, o seu rosto, as suíças de lince e os óculos pareciam dizer: ‘Sou o mais tímido, o mais modesto, o mais incolor dos oficiais de toda a brigada!’ (TCHEKHOV, 2006, p. 17).

Por sua introversão, Riabóvitch, permanece isolado, silencioso, apenas observando os companheiros de farda que conversam e dançam com as mulheres presentes na reunião. O protagonista não demonstra tristeza, apesar da consciência de que sua aparência banal e sua timidez não façam dele alguém popular como os demais colegas. Porém, sua suposta resignação com a própria realidade é abalada a partir de um fato insólito. Nesta mesma noite, Riabóvitch se perde na casa do anfitrião, e após entrar em um dos quartos, um ambiente totalmente escuro, é surpreendido da seguinte maneira:

(…) inesperadamente para ele, ouviram-se passos apressados e um frufru de vestido, uma ofegante voz feminina murmurou: «Até que enfim!» e dois braços macios, cheirosos, indiscutivelmente femininos, envolveram-lhe o pescoço; uma face tépida apertou-se contra a sua e, ao mesmo tempo, ressoou um beijo. Mas, imediatamente, aquela que o beijara soltou um pequeno grito e, foi a impressão de Riabóvitch, afastou-se dele com repugnância, num movimento brusco. Ele também por pouco não gritou, e correu para a fenda fortemente iluminada da porta [… ] (TCHEKHOV, 2006, p. 20).

Apesar de saber que não é aquele por quem a mulher esperava, o protagonista dá total importância àquele fato que para qualquer um de seus jovens companheiros de brigada se tornasse motivo de piada. Para Riabóvitch, o engano adquiriu uma aura mítica, com o poder de dar a ele a felicidade que antes não fazia parte de sua vida.

Ao retornar à sala, Riabóvitch tenta em vão reconhecer a mulher misteriosa entre as demais, o que é impossível, pois ele não teve sequer uma breve visão do rosto dela. Porém, aquele beijo roubado traz à tona os desejos ignorados de se relacionar com alguém.

Referências:

TCHÉKHOV, A. O beijo e outras histórias. T. Bóris Schneidermann. São Paulo: Editora 34, 2014.
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Referência da imagem:

http://www.lest-eclair.fr/11814/article/2017-02-01/anton-ou-tchekhov-tout-entier

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