OBRA DE ARTE DA SEMANA: Mosaico da virgem e o menino com o imperador João II Comneno e a imperatriz Irene da Hungria na Basílica de Hagia Sophia


A Virgem e o menino com o imperador João II Comneno e a imperatriz Irene da Hungria,
mosaico, por volta de 1122. Basílica de Hagia Sophia (Santa Sofia), Istambul, Turquia.

A obra de hoje é da o mosaico da Virgem e o menino com o imperador João II Comneno e a imperatriz Irene da Hungria na Basílica de Hagia Sofia, em Istambul, na época capital do Império Bizantino – ou Império Romano do Oriente – sob o nome de Constantinopla, e o mosaico se encontra na metatoria, uma parte da igreja na qual somente a corte, o clero e convidados tinham acesso.

A análise a seguir é principalmente inspirada pelo fascinante artigo “Likeness and Icon: The Imperial Couples in Hagia Sophia” de Bente Kiilerich.

Vemos o casal imperial ladeando a Virgem com o menino, que abençoa o espectador, todos devidamente identificados através de inscrições sobre suas cabeças – na época, só se tornava o retrato de alguém e, consequentemente, ficava para a posteridade aqueles nomeados em suas representações. O imperador e a imperatriz oferecem presentes – uma bolsa de dinheiro e um pergaminho, respectivamente, – à Virgem e ao menino Jesus, na esperança de intervenção divina e entrada no Paraíso após a morte.

Temos sobre o rosto da Virgem as letras gregas – a língua oficial do império era o grego – que iniciam e terminam as palavras “Μήτηρ του Θεού (transliterado Mētēr tou Theou)”, “mãe de deus”, que aparecem em quase todos os mosaicos representando-a.

Sobre o imperador, há a inscrição João o Comneno em Cristo o Deus, rei fiel, nascido na púrpura e autocrata dos Romanos. Ser nascido na púrpura (phyrogenitus) faz alusão ao fato de que as imperatrizes davam à luz em uma sala coberta de tecido púrpura, a cor difícil de obter na época, e, consequentemente, mais cara, sendo exclusiva ao imperador. Ou seja, nascer na púrpura significava ser filho de imperador, e, portanto, nascido para reinar.

Um fato importante é que ao lado desse mosaico, há outro mais antigo representando a imperatriz Zoe e seu último marido. A imperatriz morreu sem filhos, e, assim sua dinastia morreu com ela. Dessa forma, a nova dinastia se afirma através de sua continuidade, também expressada pelo retrato do primeiro filho de João Comneno e Irene, Alexis, que é representado na parede ao lado de sua mãe – Irene a mais piedosa imperatriz – segundo a inscrição. A inscrição que acompanha o jovem Alexis, feito coimperador em 1122, afirma mais uma vez sua vocação para governar: Alexis em Cristo, fiel Rei dos Romanos, nascido na púrpura.

Além disso, há um paralelo entre a representação da Virgem e do menino e da imperatriz e seu filho, mostrando que a imperatriz cumpriu seu principal papel com sucesso, aquele de gerar herdeiros – Irene teve oito filhos – que dariam continuidade à dinastia. Curiosamente, Alexis morreu jovem, sendo sucedido por seus irmãos.

Ainda é importante notar que não se sabe se o retrato do jovem foi adicionado posteriormente, no momento em que se tornou coimperador, ou se ele foi retratado na parede ao lado somente por questões de composição e falta de espaço. Outro detalhe é que o mosaicos provavelmente continuavam mais abaixo, mostrando os retratados de corpo inteiro.

Quanto à aparência dos retratados, é importante notar que existe uma mistura entre a representação de sua função imperial, os ideais de beleza da época e o verdadeiro aspecto do retrato, sendo esse último o menos importante e sobre o qual menos sabemos, pois as fontes escritas são vagas e procuram ser elogiosas aos imperadores, retratando-os segundo os padrões de beleza do tempo.

Sua identificação imperial se dá através das vestes suntuosas carregadas de pedras preciosas e pérolas, além das coroas, kamilaukion, no caso da coroa em forma de elmo do imperador, e modioloi para a imperatriz. A seriedade dos personagens representados frontalmente, tal como nos ícones, correspondem à imagem esperada dos governantes, distantes e superiores aos demais seres humanos. Além disso, eles são representados do mesmo tamanho da Virgem, sublinhando assim sua importância e seu papel como representantes dos céus na terra. O fundo dourado, conseguido através de folhas de ouro entre pedaços de vidro, também contribui para esse efeito atemporal e sem espaço definido, tipicamente divinos. Bente Kiilerich indica que, talvez, em uma representação destinada aos olhos populares – lembremos que aqui estamos falando de um espaço reservado à elite – os imperadores seriam representados de maneira mais humilde em relação à divindade.

 

Os rostos podem parecer à primeira vista individuais, pois homem e mulher são retratados com características bastante diferentes, entretanto, segundo as inspirações clássicas das representações greco-romanas que orientam essa imagem, os homens eram mostrados com pele mais escura e as mulheres com pele mais clara, e a aparência da imperatriz com cabelos claros, olhos claros e pele muito branca também correspondia ao ideal de beleza da época.

Trata-se, então, de uma imagem que ressalta a devoção religiosa do casal, sua dignidade imperial e a continuação de sua dinastia, através da figura de seu filho.

Bibliografia:

Jean-Claude CHEYNET, Histoire de Byzance, Paris, Presses Universitaires de France, 2005.

Bente KIILERICH, “Likeness and Icon: The Imperial Couples in Hagia Sophia” in Acta ad archaeologiam et artium historiam pertinentia, Vol. 18 (2004), p. 175-203.
https://www.researchgate.net/profile/Bente_Kiilerich2/publication/263468001_Likeness_and_Icon_The_Imperial_Couples_in_Hagia_Sophia/links/551ac74e0cf251c35b4f8a2f/Likeness-and-Icon-The-Imperial-Couples-in-Hagia-Sophia.pdf

Jean LASSUS, O mundo da arte: Cristandade clássica e bizantina, Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 1979. Trad. Álvaro Cabal, Áurea Weissenberg, Donaldson Garschagen, Henrique Benevides, Lélia Contijo Soares, Sílvia Jambeiro e Vera N. Pedroso.

Tania VELMANS, L’image byzantine ou la transfiguration du réel, Paris, Hazan, 2009.

Links:

Dina BOERO, “Emperor John II Komnenos and Empress Irene, Hagia Sophia” in Monastic Matrix – Ohio State University, [Online]. Consultado em 11/12/2018.
https://monasticmatrix.osu.edu/figurae/emperor-john-ii-komnenos-and-empress-irene-hagia-sophia

“Virgin and Child and Emperor John II Komnenos and Empress Irene” in Dumbarton Oaks, [Online]. Consultado em 11/12/2018.
https://www.doaks.org/research/library-archives/dumbarton-oaks-archives/doaks-archives_img/royall-tyler-travel-letters/Virgin%20and%20Child%202.png/view

Fontes das imagens:

https://www.google.com.br/search?q=hagia+sophia&hl=pt-BR&tbs=simg:CAQSlwEJIWMt3PcmOZEaiwELEKjU2AQaBAgVCAIMCxCwjKcIGmIKYAgDEii9F7kWuBa6F48JxguqF44J1grMC4Auuzn2N-8ivSu1Or862D76LfctGjCVe3oWQa_1czKpbDA0EpEw480D9aPkd1lbfvJnIBpzVl4HjUmXHK3M9UHaSS2YffQYgBAwLEI6u_1ggaCgoICAESBIxXnBMM,isz:m&tbm=isch&source=lnt&sa=X&ved=0ahUKEwi1z6bD9ZffAhXClZAKHXjvCj0QpwUIHw&biw=1366&bih=608&dpr=1#imgrc=ic9zlHgNvQk-XM:

https://hagiasophiaturkey.com/mosaic-john-komnenos-eirene-alexios/#group-3

https://www.pallasweb.com/deesis/john-eirene-alexis-hagia-sophia.html

https://www.flickr.com/photos/zug55/6162846934

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